Brasil, Urgente: Tenha Calma!
Brasil, Urgente: Tenha Calma!
Por Arthur Meucci
De volta a São Paulo. Após minha folga de fim de ano em Peruíbe me sinto mais tranqüilo e disposto. A tranqüilidade me toma. Entro novamente em ataraxia. Este tão sereno e tranqüilo estado de espírito estóico que nos faz aproveitar a vida em seus mínimos momentos e nos dá forças para enfrentar as crueldades que a existência nos impõe. Volto físico e mentalmente satisfeito de meu descanso.
É segunda-feira e acordo bem cedo para voltar ao serviço. É minha primeira manhã em São Paulo após o ano novo. Estou super disposto. Escovo os dentes, tomo um banho gelado, faço um café instantâneo e tomo um iogurte desnatado sem açúcar. Estou pronto. Pego meu celular, coloco o fone de ouvido, e vou para o escritório escutando rádio. Como a cidade esta mais vazia do que o comum, é perceptível a calma nas ruas. Inicialmente sintonizo a Jovem Pan. Nesta, um velho refrão de décadas passadas surge da voz grossa e senil do radialista: “São Paulo! A cidade mais violenta do Brasil”. É sempre reconfortante ouvir uma palavra de apoio como esta pela manhã.
Infelizmente o locutor omite que, segundo pesquisas do Núcleo de Estudos da Violência da USP e da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, Ciência e Cultura, desde 2004 a cidade mato-grossense Colzina lidera o ranking das cidades mais violentas do Brasil. É nela que ocorre a maior média de assassinatos por habitante. Dentre as capitais do país é Recife quem esta no topo das mais violentas. Segundo estes institutos a cidade de São Paulo não está entre os cem municípios mais violentos do país. A direção da Jovem Pan há anos é avisada do equivoco que comete, porém eles não têm como justificar o discurso reacionário e fascista de seu jornalismo sem apelar para esta inverdade. Como eles apóiam explicitamente os políticos de direita como Alckmin, Serra e Kassab, o Governo do Estado e a prefeitura deixam isto passar despercebido. Por que arranjar encrenca com a mídia que os apóia?
Pois bem, troco de rádio e sigo escutando música. Inicio minha caminhada pelas ruas do bairro e, há quatro quarteirões do escritório, me deparo com os jornais expostos na banca. Outra mídia igualmente reacionária, o Estadão, destaca sua manchete em letra garrafal, “SP apreende 900 celulares nos presídios a cada mês”. Com a maioria das pessoas em férias e se divertindo, há poucas tragédias ocorrendo para se noticiar. Nesta época do ano em especial há pouco material para o jornalismo policial sensacionalista. Foi preciso apelar para sensibilizar os leitores e motivar a compra do jornal.
Pois bem, pensei cá comigo: um Estado como São Paulo deve ter, no mínimo, 100 presídios em funcionamento. Fui confirmar. Entrei no site da Secretaria de Administração Penitenciária e constatei que há 143 penitenciaras em funcionamento, com uma média de mil presos por unidade. Logo, numa operação pente fino se encontra uma média oito celulares por mês em cada presídio. Se levarmos em consideração que existe pelo menos um dia de visita por semana, e que provavelmente metade dos detentos receba a visita de parentes, logo há uma média de quinhentos visitantes que passam toda a semana pelo presídio. Pode-se conceber tranquilamente que pelo menos duas pessoas, de quinhentas, consigam passar despercebidas com um pequeno aparelho. Se eu já acho difícil achar meu celular na minha mochila, imagino procurar um celular no meio de quinhentas pessoas. Constato que é um número muito pequeno de celulares em circulação.
Não é preciso conceber um forte esquema do crime organizado, muito menos uma máfia de policiais corruptos, para explicar a entrada de oito celulares por mês nos presídios como faz a mídia. Não é um dado alarmante, pelo contrário. Segundo as estatísticas da Secretaria da Administração este número reflete uma queda no número de celulares apreendidos em comparação com outros anos. Este resultado deveria ser motivo de alivio e não de pânico.
Fora dos meios de comunicação o mundo ao meu redor continuou calmo e seguro. Pouco trânsito, nenhum acidente contemplado, tudo na mais tranqüila normalidade. Fui para vários cantos da cidade e não vi absolutamente nada de anormal. A cidade fluía com perfeição. Ao entardecer voltei para casa. Sensação de dever cumprido. Preparo um café, faço um misto quente, e vou para frente da televisão descansar. Rodo os canais, e eis que me deparo com uma cena sanguinolenta. Uma criança aos prantos, coberta de sangue, parece ter levado um tiro. Aos poucos percebo que assisto uma reprise da operação do COE em uma favela feita em novembro de 2007. A todo o momento dão ênfase na criança ferida no tiroteio. Segundo o delegado somente a criança e um policial, usando colete, foram atingidos. Nenhum deles morreu. Comentários catastróficos são feitos durante as imagens. Paira um clima de terror.
A imagem volta para o apresentador. Era José Luiz Datena apresentando o programa chamado “Brasil Urgente”. Logo percebi que ele estava usando matérias frias para sustentar o clima de tensão no programa. Afinal, não havia muita matéria policial naquele período do ano para ser noticiada. Quando não passavam matérias frias, davam ênfase nas duas únicas matérias relevantes do dia: A primeira é a matéria do Estadão sobre os celulares nos presídios. A segunda foi a sensação do dia: o caso de um promotor que matou um motoqueiro no meio da rua com onze tiros.
Volta e meia ele avisa que, assim como eu, estava voltando ao comando do “Brasil Urgente” após alguns dias de férias. Porém, não parece que ele relaxou. Falava e gesticulava como um homem que estava prestes a ter um enfarto frente às noticias que ele veiculava. Quando o Datena foi informado que a arma do promotor Pedro Baracat Pereira era irregular, e que não foi achado uma arma com o motoqueiro Firmino Barbosa, o apresentador surtou. Ele dizia “- O Brasil esta infestado de bandidos fora e dentro da lei”. “Policiais dão celulares para bandidos, promotores matam pessoas na rua”. Por fim, uma música nefasta ao fundo. Com um olhar lacrimejante, imagens mostrando uma criança ensangüentada chorando, ele vociferou: “- Brasil, acorda! Estamos no meio de uma guerra civil!”. Os créditos sobem. O programa acaba. Desligo a televisão. Volto ao real.
O leitor em algum momento deve ter se perguntado: como os meus relatos do mundo são tão discrepantes dos relatos midiáticos sobre a realidade? A explicação para tal questão pode ser feita por dois teóricos do qual tenho muito apreço. A primeira explicação vem do pesquisador húngaro George Gerbner que pesquisou, nas décadas de sessenta e setenta, os efeitos da mídia na percepção que os telespectadores têm do mundo. Ele denomina estes estudos de “cultivation theory” (Teoria da Enculturação). Por enculturação se entende o processo pelo qual somos condicionados a assimilar culturalmente uma visão de mundo desejada pelos dominantes. Nas suas pesquisas Gerbner prova que quanto mais assistimos televisão mais enxergamos a realidade de maneira distorcida. Suas pesquisas mostram que quanto mais um indivíduo assiste TV mais ele vê um mundo maniqueísta, povoado por bandidos e policiais. Mais violento e perigoso do que realmente é. Aumenta sua percepção de que a morte por assassinato é comum e iminente (GERBNER, 2001; 2002). Segundo ele, uma pessoa que assiste mais de quatro horas de televisão por dia começa a descrever o mundo ao seu redor como um filme de ação policial. Mocinhos, vilões, vítimas, morte…
Os meios de comunicação criam uma realidade distorcida no qual o público assimila aos poucos, sem perceber. São os chamados efeitos midiáticos de longo prazo. Quando perguntamos em aula qual a média anual de assassinatos no Brasil, ou nos EUA, os alunos tendem a responder entre 15% e 28%, sendo que o número real de assassinatos é de aproximadamente 0,00025%. Entre todos os tipos de mortes que podem ocorrer a chance do leitor morrer assassinado é de vinte e cinco em cem mil. Há muito mais mortes por desnutrição, câncer, diabetes, acidentes de trânsito, trabalho e outros males do que por assassinato. Espantado? Creio que sim. Mas por quê?
A resposta é simples: Tirando artistas e políticos, quando é que os meios de comunicação noticiam mortes por câncer, AIDS ou pneumonia? Quantas vezes a televisão fez reportagens sobre uma criança, ou morador de rua, que tenha morrido de desnutrição? O cigarro sim mata por ano uma quantidade considerável de pessoas. Quando foi que você viu na mídia reportagens, nos hospitais públicos e privados, de pessoas morrendo por causa do fumo? Agora, matérias sobre assassinatos com certeza você já viu, vê e revê a todo o tempo. Seja no jornal, no seriado, na novela, ou no filme.
Os dados sobre violência no Brasil mostram que, ano após ano, o índice de violência vem caindo. O número estatístico de assassinatos é relativamente menor ao passar das décadas. O mundo é, segundo os pesquisadores, cada vez mais seguro. Estamos cada vez mais perto da idéia kantiana de “paz perpétua” em comparação com o “estado de natureza” hobbesiano imposto pela mídia.
Esta discussão me lembrou um bom livro que li recentemente intitulado “Cultura do Medo”, escrito pelo americano Barry Glassner. O autor inicia sua pesquisa, e seu excelente livro, com uma pergunta muito simples: “Por que será que, apesar dos índices de criminalidade terem despencado durante toda a década de 1990, dois terços dos americanos acreditam que subiram?” (2003, p; 19). A mesma pergunta poder se feita no Brasil. Um dos principais fatores para o aumento desta sensação é a espetacularização midiática do crime e da violência. Um mero corpo morto à facada em um parque dá aos jornalistas duas semanas de noticiabilidade. Sugerem ações de gangues, traficantes, uma nova onda de latrocínio, ou mesmo sinais de um provável assassino em série. Transformam um caso particular em sintoma de uma possível onda de violência desmedida.
Mas a quem interessa a “cultura do medo”? Aos meios de comunicação que lucram com estas fatalidades. Convertem tragédia em audiência. Também lucram os setores de segurança que conseguem lucros bilionários e crescem em proporção semelhante à queda da criminalidade. Por fim, ganham os setores reacionários dominantes da sociedade. Thomas Hobbes, no início do século XVII, dizia que o “medo da morte violenta” justificava a submissão do homem a sociedade política. Segundo ele, para se evitar um estado de natureza onde o “homem é lobo do homem”, onde todos podem sair matando ao seu bel prazer, é preciso um Estado autoritário que controle a vida dos cidadãos. Justifica um sistema que limita a liberdade do indivíduo e seus direitos em nome de um Governo que nos protege da morte violenta. O filme “V de Vingança” mostra de forma majestosa este processo. É a exploração de nossos medos um dos principais fatores que perpetuam o status quo econômico e político do sistema. Econômico? Sim. Quem já não ouviu algum político ou jornalista soltar uma frase do tipo, “investir nos pobres, dar bolsa família, é alimentar o bucho dos criminosos de amanhã”? Não nos esqueçamos que pobres e negros são os símbolos sociais da criminalidade. Nesta lógica reacionária e fascista qual seria o ganho social em investir nestes “futuros inimigos”?
Dia após dia, programas após programas, discurso após discurso, vamos incorporando uma cultura que gera medo e a falsa sensação de impunidade nos criminosos. O mundo espetacular da televisão molda o mundo de carne e osso. Mas o que realmente podemos fazer contra a violência que a mídia exerce sobre nós? Nas atuais circunstâncias só podemos nos policiar e acalmar.
Bibliografia indicada
GLASSNER, Barry. A Cultura do Medo. Trad. Laura Knapp. São Paulo: Francis, 2003
GERBNER, George, Against the Mainstream: The Selected Works of George Gerbner. New York: Peter Lang Pub Inc, 2002
________________, O mundo assustado daqueles que assistem muito à TV. In Revista da ESPM, São Paulo, v.8, n.1, jan./fev. 2001. p. 15-21
9 Janeiro, 2008 às 5:44 pm
Como sempre mais um excelente artigo!
Parabéns Artur!
Fui ouvinte da Jovem Pan “obrigatoriamente”, mas sempre constatei o que você mostrou agora: Conservadores de direita; às vezes de extrema direita, que inclusive fazem questão de deixar bem clara sua proximidade com a igreja! Ouvia muito nas décadas 70/80, e pode imaginar a tragédia!
9 Janeiro, 2008 às 5:56 pm
É o que eu chamo também de TERROR MIDIÁTICO…
Agora é moda mostrar ” o quanto somos refens do crime”
Não bastasse na vida real, outro dia sendo obriggada a acompanhar, com as 3 senhorinhas “geriatricamente modificadas”, uma novela da globo, tive que assistir a um tiroteio onde no mínimo 2 pessoas foram mortas; era a invasão de uma favela por traficantes.
E as 3 senhorinhas ficaram com os olhos marejados, dizendo: “”É a pura realidade; em que mundo estamos vivendo meu deus! Ainda bem que a globo “mostra as verdades”"
A opinião pública nunca foi tão representativa de um grupo particular, mostrando apenas o que interessa a meia dúzia de magnatas da comunicação…
Em épocas de maior acesso à cultura e informação que não dos meios que eles dominam, pois há muitas alternativas como a Internet,seja confortável para essa gente que, estejamos todos mantidos sob o jugo de algum tipo de terror, já que as babaquices alienantes não andam funcionando com tanta gente quanto eles queriam
10 Janeiro, 2008 às 1:34 am
Parabéns pelo seu blog!
Muito Legal, Adorei…
Visita o meu tbm:
http://blogaodoflamengo.wordpress.com
Seu quizer, deixe um comentário.
Abraços e Sucesso!
10 Janeiro, 2008 às 1:05 pm
Arthur,
Até nas minhas férias não consigo ficar sem lê-lo.
Quanto ao artigo Brasil, Urgente: Tenha Calma! Gostei. Que bom que no meio dessa “cultura do medo”, tem gente como você que se mexe com iniciativa tão maravilhosa como este artigo. Parabéns!
Visito e leio sempre você com maior prazer.
Renato Papis
10 Janeiro, 2008 às 1:08 pm
Olá Arthur!
Observei seu cometário no blogão do flamengo, sobre um blog para desenvolvimento de WordPress…
Recomendo o Pblog, eles dão várias dicas para WordPress…
Site direcionado para WordPress…
http://www.pblog.com
Google = Pblog
10 Janeiro, 2008 às 1:25 pm
Desculpa! O Link está errado, correto é
http://www.pblog.com.br/
.BR no final…
11 Janeiro, 2008 às 3:00 am
O Datena realmente é um grande sensacionalista, explora uma noticia até não aguentar mais, repete milhares de vezes as imagens e faz comentários pessoais inuteis até o final do programa.
11 Janeiro, 2008 às 11:56 am
Excelente artigo, muito bom mesmo. É uma pena não ter nenhuma mídia impressa que publique esse tipo de informações. Mas graças a parte boa da internet conseguimos ler algo de qualidade.
15 Janeiro, 2008 às 11:47 am
[...] Crítica Filosófica: Filosofando sobre o mundo que “nos” afeta Um ciberespaço para reflexões de Arthur Meucci e convidados super especiais… Quem escreve? « Brasil, Urgente: Tenha Calma! [...]
18 Abril, 2008 às 9:35 pm
para: Alexandre e Ana Carolina Jatoba
“Nada ficará incoberto diante de DEUS, pois ele é Fiel. Não queiram enganar a si próprio, pois o Brazil ja sabe a verdade.
“aquele que confesa e deixa alcançará misericordia” prov. 28.13
Avogado nenhum irá aprovar inocência, pois ela não existe.
Tudo que esta escondido diante do homem, DEUS trara à luz, cedo ou tarde.”
26 Abril, 2008 às 11:18 am
PREZADO ARTHUR,
Parabéns pela matéria, mostrando que a mídia esconde a realidade em que vivemos.
Gostaria que você fizesse um comentário à respeito da atual atitude do GOVERNO (Presidente Lula em especial), que contrariando todo o seu discurso ao longo de décadas, está querendo vetar duas matérias de alta relevância para o trabalhador brasileiro, recentemente aprovadas no Senado Federal.
Trata-se da aplicação uniforme do índice de reajuste das aposentadorias e da eliminação do maléfico FATOR PREVIDENCIÁRIO, que foi criado para inibir o cidadão de aposentar-se, mesmo depois de ter completado o tempo de contribuição exigido, isto é, 35 anos.
E pensar que a lei nao se aplica aos detentores do PODER.
É desumano e infelizmente a nossa mídia não divulga a matéria conforme acontece na realidade e ficam mentindo que há déficit na PREVIDÊNCIA SOCIAL, utilizando-se números que pertencem ao segmento social.
O TRABALHADOR JÁ ESTÁ SOBRECARREGADO COM TANTOS FARDOS IMPOSTOS PELO GOVERNO E A SITUAÇÃO PRECISA SER REVERTIDA.
Para isto, precisamos contar com o apoio de pessoas esclarecidas e que utilizam o espaço de forma produtiva e colocam o cidadão ao par da real situação vivida em nosso país.
Desde já, agradeço por deixar este recado e lhe desejo muito sucesso e paz na sua vida.
Um abraço
DILERMANDO.
5 Setembro, 2008 às 7:19 pm
Os bonbeiros salvam vidas todos os dias… !!
BjoO”
2 Dezembro, 2008 às 5:54 pm
datena estamos torcendo todos pra q essas coisas melhore e q esse neto teja prisa perpetoa
9 Fevereiro, 2009 às 5:11 pm
Muito bom o texto.
Estou no último ano do curso de jornalismo na Universidade da Amazônia e estou querendo fazer um TCC sobre a cultura do medo.
O seu relato me foi bastante inspirador e esclarecedor.