Fidel e o Mundo-da-vida
Fidel e o Mundo-da-vida
Por Arthur Meucci
Filme / Longa: A Culpa é do Fidel (Em cartaz)
Título Original: La faute à Fidel!
Direção e Roteiro: Julie Gravas, Arnaud Cathrine
Origem: França Ano: 2006
Em um post passado comentei meu desencantamento pelo cinema francês. Disse que após “Amélie Poulain” não tinha visto nenhum outro filme gaulês decente até assistir recentemente “A Noiva Perfeita”. Pois bem, fui surpreendido novamente pelo cinema em questão com o filme “A Culpa é do Fidel”. Sem dúvida um clássico.
O filme nos coloca questões importantes sobre nossa percepção da realidade na perspectiva de uma criança que tenta, aos 9 anos, buscar verdades e valores absolutos sobre o mundo. Ela tenta, como muitos, se situar com segurança e clareza ao interpretar a realidade que a cerca. Esta interessante história nos mostra a protagonista Anna em seus conflitos e dilemas em sua jornada existencial. Criada numa típica família classe média, com avós vinicultores e estudante de uma escola católica, ela tem uma visão conservadora do mundo. Acredita piamente nos ensinamentos da família, na catequese, e é uma chata xerife das normas sociais de etiqueta.
O engajamento dos seus pais no movimento comunista, com sua mãe tentando atuar como uma jornalista engajada e seu pai ajudando o governo chileno do Allende, sua referência primordial de mundo começa a ser confrontada. Em meio a tanta mudança Anna desabafa com sua empregada, fugida de Cuba, sobre toda aquela transformação. Rapidamente esta senhora diz que a culpa de toda desordem é do Fidel, chefe dos vermelhos, que junto com um monte de barbudos comunistas tomaram o poder em seu país.
Neste exato momento sua percepção do mundo é colocada em xeque. Quem esta certo? A visão tradicional e capitalista de seus avós? Os ensinamentos católicos da escola? Ou os amigos barbudos de seus pais? Começa assim a questão: Qual dos três discursos é o mais correto? O mundo ao seu redor começa a mudar, e ela se sente cada vez mais perdida. Sua angústia, no fundo, mescla com a do espectador. Afinal de contas, com tantos discursos divergentes sobre o mundo, qual é o mais adequado? Qual é o verdadeiro? Apesar de ser uma menina extremamente antipática surge uma catarse entre ela e o público através de seus dilemas existenciais.
A discussão levantada pelo filme também foi tratada diversas vezes pela filosofia. Desde os gregos discutimos as conseqüências de se pensar o funcionamento do mundo segundo explicações teóricas gerais. Questionamos a pertinência das teorias com o mundo em que vivemos. Há um filósofo em particular que trata muito bem esta questão: Edmund Husserl.
Segundo este filósofo nossa percepção do mundo se dá mediante a duas esferas em permanente conflito em nossa consciência: o mundo objetivo e o mundo-da-vida. Segundo Husserl o mundo objetivo é um mundo povoado por explicações lógicas e racionais sobre a realidade que nos afeta. São discursos científicos como a física, a biologia, as ciências sociais, ou mesmo teológicos que nos fornecem pressupostos para sistematizarmos a realidade segundo uma lógica de explicação e mensuração dos fenômenos. Por fenômeno entendemos a realidade como se apresenta a nós. Como nunca podemos conhecer o mundo como ele é, em si-mesmo, só podemos ter dele as sensações limitadas fornecidas pelos sentidos. Assim, aprendemos o funcionamento do mundo segundo certa lógica de interpretação. Atuamos sobre a realidade segundo pressupostos de como ele funciona. Ora pensando segundo as leis da mecânica, ora com a dinâmica das enzimas, ou com os mecanismos dos afetos e do inconsciente, ou ainda utilizando de conceitos como classes sociais, esfera, campo, capital, lucro, etc.
Porém, o filósofo em questão nos adverte para o simples fato de que o mundo dos discursos racionais objetivistas não coincide com o mundo em que vivemos no dia-a-dia. Este mundo que sentimos, com que nos relacionamos, o mundo-da-vida no qual nossa existência acontece, é plural e complexo demais para ser explicado pela redução dos discursos científicos. A todo tempo percebemos que as teorias muitas vezes não condizem com o mundo que se apresenta. A ciência não acerta sempre, e algumas vezes não ocorrem os acontecimentos de maior probabilidade. A razão sem dúvida é poderosa, porém insignificante quando tenta explicar a complexidade e os fenômenos da existência como um todo. Por mais que o conhecimento avance percebemos que ainda somos pequenos diante do real. E esta pequenez nos traz medo, que por sua vez traz insegurança. Por isso tanto crianças quanto adultos tentam desesperadamente obter respostas e verdades inquestionáveis. Afinal, não nos ensinaram a viver sem elas.
A pequena Anna percebe que o discurso dos pais, dos avós e da igreja são conflitantes. Tenta então procurar a explicação mais correta entre estas. No fim, constata que todos estes discursos têm suas falhas. Não há uma certeza discursiva que a satisfaça. O mundo que ela vive, vê e sente não está inscrito no discurso conservador, liberal, católico ou marxista. O mundo que nós adultos vivemos também não. A diferença entre nós e as crianças reside simplesmente na exaustão. Cansamos de nos questionar sobre os problemas dados pelas perspectivas de mundo. Aprendemos a aceitar qualquer conjunto teórico que seja discursivamente coerente e aceito pelas pessoas que nos interessam. Se utilizamos Einstein, Bohr, Marx, Freud, Bourdieu, Darwin, Lacan ou Habermas para explicar a realidade, e não questionamos ou aceitamos suas falhas e limitações, tal procedimento nada mais seria do que um sintoma. Uma manifestação que esconde o medo do incerto, inseguro e inexplicável existir.
Diante do drama e dos risos que a menina provoca ela nos desperta, pouco a pouco, nossas dúvidas referentes ao mundo que nos cerca. No tempo dela ainda existia a divisão entre as propostas socialistas e capitalistas. Havia um contraponto para se apoiar. Mas e hoje, onde não há propostas significativas de mudança do mundo? No que podemos nos sustentar? O fracasso dos discursos científicos e ideológicos sobre o real nos coloca diante de um problema: – como pensar, interpretar e agir para se viver bem?
Diante do mesmo dilema de Anna só nos aparece três perspectivas plausíveis:
A primeira é fazer como Husserl, suspender os juízos e colocar em dúvida todos os conhecimentos aprendidos sobre o mundo (epoché fenomenológica) para poder formular um método fenomenológico seguro e continuar buscando um conhecimento verdadeiro e valores que possam ser universalmente compartilhados.
A segunda é comprar o discurso pós-moderno de fim das ideologias, falência da razão, e se apegar ao mundo liquido, fugaz, sem regras e individualista da sociedade de consumo.
A última perspectiva é aceitar a boa e velha postura do ceticismo. Adotar a epoché cética analisando meticulosamente os diversos discursos sobre o mundo, sem confiar ou ignorar suas propostas de saber. Duvidar de toda verdade ou valor absoluto. Como diria o filósofo Pirro, “É possível viver, com arte, uma vida feliz, ainda que sem a verdade e sem os valores, pelo menos como eles haviam sido concebidos e venerados no passado”.
A filosofia, assim como a arte, denuncia os dilemas existências com que os homens padecem. Porém, não tem que se preocupar em dar respostas últimas sobre o mundo. O filósofo não deve se rebaixar ao nível do cientista. Afinal, você realmente acha que há uma resposta universal para os problemas que cada homem encontra em sua singular trajetória existencial?
25 Janeiro, 2008 às 11:19 am
Muito interessante o texto, Arthur. Disse algo parecido ao Marcelo, quando este se referiu a um doutor em física. Ele disse que se o doutor em física o chamasse de ignorante, teria que aceitar, porque sabia muito mais que ele. Eu o questionei se a vida resume-se à física, e o que o tal físico sabia além da física…
28 Janeiro, 2008 às 5:45 pm
Olá Arthur
Interessante a ligação que você faz do filme com a filosofia. O olhar questionador da filosofia sobre o mundo é semelhante ao da criança.
Mas não concordo que não haja propostas significativas de mudança do mundo hoje. Mudar o mundo é possível e necessário, vivemos um período em que as contradições entre as classes se acirram cada vez mais.
Por isso, não compartilho com as três perspectivas apresentadas no seu texto. E também não acho que exista uma resposta universal para os problemas dos homens. Transformar a sociedade é apenas um passo necessário neste caminho.
Saudações
29 Janeiro, 2008 às 8:22 pm
Oi Arthur!
Muito bom o blog, com colocações muito interessantes. Eu não sou o maior fã do cinema francês, mas às vezes acho filmes bons, como Meu Melhor Amigo (Mon meilleur ami). Depois de ler o seu post fiquei com vontade de assistir o A culpa é do Fidel. Espero que ele passe logo aqui em Santos.
Abraços!