João Victor: o jovem herói da educação brasileira
João Victor: o jovem herói da educação brasileira
Por Arthur Meucci e Flávio Tonnetti

O conceito de “juventude” é uma construção social, que tanto distingue um indivíduo como o limita em sua trajetória de vida. Uma pessoa com trinta anos, para determinados mercados, e em determinados ramos de atuação profissional, pode ser considerada velha demais para iniciar
uma carreira, no entanto, em contrapartida, pode ser “jovem demais” para ocupar o cargo de presidente de uma empresa. Embora o fator “idade” seja um fator objetivo – uma medição de tempo, biologicamente verificável – os conceitos de juventude e velhice, que orbitam em torno dela, não obedecem a parâmetros bem estabelecidos. O que significa dizer que uma pessoa de 16 anos é adulta para votar e muito jovem para dirigir?
O conceito de juventude pode, portanto, ser utilizado tanto como mecanismo de legitimação como de deslegitimação – categoria imposta por agentes dominantes em determinado campo social. Embora possa ser utilizada como sinônimo de inovação, vigor ou beleza, a palavra jovem carrega consigo, na maioria das vezes, a carga simbólica de inexperiência, imaturidade, irresponsabilidade ou inaptidão. Notamos o emprego pejorativo do termo quando “velhos experientes”, defendendo seu campo social, desejam excluir ou limitar a participação de indivíduos que propõem mudanças nas estruturas sociais e de poder.
O caso do menino João Victor, de 8 anos, que foi aprovado em vestibular para o curso de Direito da UNIP, que é, reconhecidamente, considerada como uma das mais fracas instituições de ensino superior do país – embora seja uma das maiores – nos dá um exemplo muito interessante para pensarmos no conceito de juventude como limitação social. Além de nos ajudar a reforçar o ditado popular de que tamanho não é documento – principalmente quando se trata de certas instituições de ensino.
Para ingressar nas faculdades de nosso país, os candidatos precisam se submeter a uma prova: o vestibular. É de conhecimento de todos que, no caso da UNIP, que parece ter como objetivo principal admitir ao invés de selecionar, a prova é fácil – embora o coordenador de cursos da instituição tenha dito, em entrevista à emissora de rádio CBN[1], que o vestibular segue os mesmos parâmetros que outros vestibulares de outras instituições de ensino, o que é, no mínimo, duvidoso. São ainda inúmeras as histórias, ouvidas e presenciadas, de que muitos ingressam nesta instituição mesmo sem ter feito a prova – e não tivemos, até o momento, conhecimento de um único caso em que um aluno tenha sido reprovado em vestibular da UNIP. De todo modo, mesmo que questionemos sua eficácia no processo seletivo, o fato é que a prova existe, e deve ser tomada como critério objetivo de seleção.
Se a prova é um critério objetivo, porque não dar ao jovem João Victor a oportunidade de cursar a faculdade de Direito e entrar para a história do Ensino Superior do país como o mais jovem bacharel que se tem notícia?
Veja a injustiça. Mozart, aos doze anos de idade, foi reconhecido por seus pares como compositor de música erudita, simplesmente por escrever peças como gente grande. Ora, João Victor fez prova como gente grande, teve um desempenho maior do que o de muitos concorrentes adultos na prova de redação, porém, teve seu sonho de fazer Direito aos 8 anos castrado pela sociedade. Mais especificamente pela própria instituição de ensino, a UNIP, juntamente com o Ministério da Educação. Em sua defesa, UNIP e MEC, afirmam que o candidato é jovem demais para fazer o curso.
É jovem demais para estas instituições, mas não para seus futuros colegas de profissão, já que o menino João Victor recebeu, antes mesmo de iniciar o curso, proposta de estágio em escritório de advocacia – que se prontificou, inclusive, a arcar com as mensalidades do jovem Mozart tupiniquim. Que outro estudante da UNIP teria estas mesmas oportunidades?
No caso de reconhecidos gênios, a sociedade, vez ou outra, faz suas exceções e aceita que jovens prodígios ocupem seu devido lugar. Mas como proceder com o jovem João Victor cuja própria própria família insiste em afirmar que o menino não é super dotado, ou mesmo que tenha um desempenho escolar acima da média? Apesar da alta nota na prova de redação do vestibular, também sua professora, da escola regular, insiste em desabonar o pimpolho, ao dizer que o menino ainda apresenta um domínio precário da linguagem escrita.
Talvez por isso, por essa recusa por parte de todos em aceitar a genialidade de nosso herói, seja plausível a preocupação da OAB, que agora decidiu que seria “prudente” iniciar uma investigação nos vestibulares de certas instituições privadas de ensino superior, já que é preciso cada vez menos habilidades para tornar-se um advogado!
O pai parece ser o único a acreditar nas potencialidades de João Victor, já que levou a cabo o projeto de formar um filho, pagando inclusive a primeira mensalidade. Também nós acreditamos no futuro promissor deste jovem. Conseguir ser alfabetizado, aos oito anos, em um país que lança à sociedade uma parte considerável dos estudantes que terminam o ensino médio sem ser capazes de ler ou escrever com fluência, é um sinal de distinção social. Cada país tem o gênio que merece.
A UNIP bem que poderia utilizar seu slogan “Sempre em Primeiro Lugar” ao se referir à aprovação e aceitação do garoto de oito anos. A UNIP, tão distinta instituição, habilidosa na capitação de alunos e acúmulo de capital, errou, desta vez, na estratégia de marketing.
Gostaríamos de viver até o dia em que o jovem João Victor iria para a tevê, encabeçando uma gigantesca campanha publicitária, com aquele tradicional sorriso no rosto e o diploma na mão – mas deste prazer, todos nós, brasileiros, seremos privados. Nos resta apenas tomar este caso como um exemplo de quão cerceada pode ser a juventude, por ferir interesses econômicos e sociais bem estabelecidos, abalando as estruturas de grupos dominantes. João Victor, ainda que não venha a engrossar a fila de universitários que procuram emprego depois de formados, será para sempre nosso pequeno herói da reforma educacional brasileira, caso ela venha.
Ao João Victor, por fim, que, sendo brasileiro, não desista nunca. E que não deixe de realizar todos os sonhos de que nós brasileiros somos capazes: cursar com dignidade um ensino superior de qualidade.
7 Março, 2008 às 11:28 pm
Olá
Permite-me discordar?
O vestibular da UNIP é um dos mais fáceis, mesmo dentre as Universidades privadas.
Se o vestibular deles é tão bom quanto argumentam, pq se recusaram a fornecer uma cópia da prova do garoto?
Gostaria de saber qual seria o desempenho do garoto num vestibular como o da USP ou da FATEC.
Abraços.
7 Março, 2008 às 11:34 pm
Onde está o heroísmo num sistema educacional falido, onde até analfabeto é aprovado e gêmeos identicos não possuem a mesma etnia?
Um vestibular, onde até um garoto de oito anos consegue ser aprovado, mostra-se inútil, pois não seleciona ninguém. É apenas uma falsidade educacional que mascara a incapacidade dos alunos de conseguirem notas razoáveis.
Quem defende uma atrocidade dessa deveria ser preso por apologia ao crime. Pq isso é um crime contra a formação intelectual do brasileiro.
8 Março, 2008 às 1:04 pm
Olá Arthur!
Bom, não sei se choro, se caio na gargalhada, se me sinto orgulhosa em fazer parte da mesma nacionalidade do garoto, se creio, se descreio…
Sei que as “UNIDUNITÊS” da vida, EM SUA QUASE TOTALIDADE, querem apenas investimentos; pouco se lhês dá se os alunos terão excelência nos estudos. Mas este caso é um verdadeiro “ENIGMA TOSTINES”: O garoto passou por que tem competência ou por que os testes da Unip são um fracasso?
Pensarei sobre isto neste fim de semana!
Mais uma vez, para béns pelo artigo!
8 Março, 2008 às 6:40 pm
Primeiramente, gostaria de esclarecer que não conheço a faculdade citada, nem seus métodos de ensino, mas acredito que para um pessoa cursar uma faculdade de direito, de forma proveitosa, ela não tem que apenas ser alfabetizada, ela tem que possuir uma maturidade, que esta criança por mais inteligente que seja, não possui, por um simples motivo: ela tem apenas oito anos de idade, e não é um gênio!
E o mais assustador de toda esta história para mim, é o comportamento desde pai, que pagou uma inscrição de vestibular para uma criança de oito anos e, acredita que pelo simples fato de seu filho “querer”, ele tem que cursar uma faculdade.
Convenhamos, já começa mal uma carreira jurídica de alguém que parece não perceber que existem normas que devem ser cumpridas em sociedade, neste caso possuir o ensino médio para se cursar um faculdade.
Se esta criança é mais alfabetizada do que a maioria dos estudantes do ensino médio, ótimo para ela, que sirva de estímulo para seu futuro e, que na hora certa, vá pra faculdade!!!
Troço para que este pai, tenha um momento de serenidade e pare de se promover as custas desta pobre criança, que depois desse episódio lamentável, irá certamente precisar de acompanhamento psicológico, porque não conseguirá mais conviver com seus colegas de sala, por certamente acredita ser superior a eles!!!
A aprovação de uma criança de oito anos, que que não possui qualquer conhecimento além do ensino fundamental, em uma faculdade de direito, demonstra mais uma vez a necessidade da prova da OAB, e por falar nisto, VIVA A PROVA DA OAB!!!
8 Março, 2008 às 11:45 pm
Bom, acredito eu que todo esse estardalhaço aconteceu justamente por causa da atitude absurda dos pais desse garoto. Vale ressaltar que o mesmo é, ou será um futuro estudante da UNIP e que fará o mesmo curso que o garoto.
Olhando por esse ângulo, não acho que seja absurdo tudo o que esta acontecendo. Muito pelo contrário, é até explicável. O pai que em breve se formara pela UNIP, também não possui uma BOA educação e, portanto inteligência necessária para apoiar o próprio filho. Hora, se ele é um estudante de direito, deveria saber que por lei, seu filho com apenas 8 anos de idade não pode entrar na faculdade e saberia também que a UNIP não é, e nunca foi um exemplo de ensino superior. Só mesmo ele enquanto estudante também da UNIP, gostaria de ver o seu pequeno “gênio” se formando em direito pela UNIP.
10 Março, 2008 às 8:34 pm
ESSE MENINO É BURRO QUE NEN A BESTA ,
MINHA ÉGUA É MAIS INTELIGENTE DO Q ELE
11 Março, 2008 às 12:46 pm
Ironia brilhante!
Muito bem escrito e argumentado.
Tão interessante quanto o texto é o comentário de alguns que foram incapazes de entender o estilo ironico que foi empregado. O pior é que ainda criticam o garoto por ter problemas de escrever e interpretar textos… O brasileiro realmente é uma piada!!!
Parabéns pelo texto.
12 Abril, 2008 às 10:21 pm
Amarelinha. Carrinhos. Esconde-esconde. Pega-pega. Mamãe-cola. Isso era o que uma criança de oito anos deveria estar fazendo! Tempo para ser adulto terá dos 20 aos 60 anos sendo que sua infancia durará até 15 anos, quando vira adolescente. Porque podar a fase mais bonita e explendida de uma pessoa? Porque destaca-la na sociedade por se colocar no meio adulto antecipadamente? Isso é bonito? Está mais do que comprovado de que no Brasil a educação é dispensada pois até o presidente não a tem, então deixe pelo amor de deus esse guri viver sua fase da fábrica de chocolate enquanto não tem maturidade o suficiente para entender o mundo em que o cerca. Sem contar que como que ele fará direito já desrespeitando uma lei no primeiro ano de faculdade?
poupem-me
14 Abril, 2008 às 1:01 pm
Assino em baixo das palavras do João Reis
20 Abril, 2009 às 9:49 am
ola