Soluções Argentinas e Chinesas para o PIB Brasileiro

Soluções Argentinas e Chinesas para o PIB do Brasil


Por Arthur Meucci

Após tecer reflexões sobre os mais variados objetos do saber, desde comunicação e política até questões sobre a psique, o Crítica Filosófica foi convidado por seus leitores mais assíduos a discutir questões relativas à economia. Ultimamente percebo que tais discussões ficaram tão popular quanto falar sobre futebol e política. Todo mundo acha que entende e quer palpitar. Especialmente políticos de oposição e jornalistas.

Uma questão que há muito tempo me intriga diz respeito ao PIB. Como se define o PIB? Seria válido comparar o PIB de dois países? Creio que muitos economistas e jornalistas ainda não perceberam que os parâmetros para a definição do PIB são construções interessadas feitas pelos dominantes do capitalismo. Que a definição de crescimento econômico corresponde ao parâmetro dos dominantes do sistema.

Esta afirmação só será percebida pelo leitor quando eu tentar responder a segunda questão: É valido comparar o PIB de países para avaliar boas políticas econômicas? Esta foi uma das estratégias de ataque de Geraldo Alckmin (PSDB) e dos meios de comunicação, em 2006, nas eleições contra a situação. “Como não crescemos 9,2% (2005) e 8,7% (2006) como a Argentina e só conseguimos uma média de 2,5% (2005) e 3,7% (2006)?” questiona Alckmin e nossos “sábios” jornalistas e economistas. A resposta de ambos é: a comparação nos mostra que o atual governo é incompetente.

Ao ler um fabuloso artigo do The Economist intitulado “Brasil e Argentina: A Tartaruga e a Lebre”(19/03/08), decidi utilizá-lo como material de apoio e partindo da premissa de que é possível uma comparação avaliativa de medidas econômicas baseada no crescimento do PIB, resolvi fazer duas simulações de planejamento econômico com a tática de dois países com ótimos desempenhos de crescimento segundo o quesito PIB: Argentina e China (9,9%).

Modelo Argentino em Nove Passos

Segue as táticas econômicas de nossos hermanos para sairmos da nossa mísera média de crescimento. Vamos trocar nossa política de 5% pela de 8,7%. Eis os procedimentos:

1 – Quebrar a economia do país e viver no atraso econômico por dez anos, registrando crescimento negativo em torno de -5%. Assim, após uma década, quando voltarmos a crescer, qualquer investimento estrangeiro e governamental fará um salto estatístico considerável no PIB.

2 – Após uma década nefasta de perdas econômicas e desemprego comece a reinvestir na economia emitindo papel moeda. Fabrique dinheiro, sem se preocupar com o lastro, para pagar suas dividias externas e investir em infra-estrutura agrícola e industrial.

3 – Dê um calote nas dividas públicas. Diga para nossos credores compatriotas: Devo, não nego. Pago quando quiser!

4 – Muito importante: Não permita que outras instituições, que não o Governo, avalie o crescimento da inflação no país. Negue descaradamente sobre a emissão em massa de papel moeda e não deixe que os números irreais divulgados sobre a inflação ultrapassem os 20% ao ano.

5 – Esqueça a agricultura de subsistência e áreas de proteção ambiental. Utilize toda a terra agrícola disponível para plantar produtos com alto preço de commodities no mercado internacional como a soja, por exemplo. Aproveite a grande oferta de mão-de-obra desempregada e pague pouco. Essa política elevará os índices de crescimento das importações, diminuirá o desemprego, e gerará rendas para o Governo através de impostos e taxas adicionais.

6 – Utilize o dinheiro do Estado, o alto índice de desemprego, os baixos salários, a ausência de sindicatos fortes e uma guerra fiscal com os países vizinhos para trazer novas indústrias para o país. Em comparação com o período de recessão, este tipo de política econômica trará um enorme aumento nos índices de crescimento industrial.

7 – Ei! Continue fabricando dinheiro ai na surdina. Acabou a matéria prima? Recicle ou derrube algumas árvores na região sul para fabricar mais papel moeda.

8 – Interfira diretamente no câmbio. Estipule o valor do Real quando melhor nos convier. Ao competir nas exportações, ou pagar dívidas, desvalorize a moeda. Quando as importações subirem, e comprometerem o balanço comercial, nós aumentamos.

9 – Para evitar que a população perceba e reclame de tais projetos dê um programa de debates semanal para o Romário na televisão e apóie países revolucionários como a Venezuela e a Bolívia. O povo vai se entreter com as bobagens televisivas e achará que todo o crescimento econômico é uma maravilha da pseudo-esquerda política.

Temos acima um conjunto simples de procedimentos que farão o número do nosso PIB disparar e nos equipararmos com a Argentina. Porém, se você é o tipo de brasileiro que não suporta se igualar ao argentino e quer mostrar sua superioridade, segue o modelo do país que mais cresce no mundo: A China!

Modelo Chinês em Oito Passos

1 – Instaure uma ditadura no país extremamente repressora e utilize um modelo econômico planificado – vulgo socialista -, como base estrutural. Extermine os políticos de oposição, queime livros, mate professores contrários ao Governo e acabe com as liberdades individuais.

2 – Controle todos os meios de comunicação do país. Instaure a censura e o controle da informação interna e externa.

3 – Após ter o controle total do país mande os cidadãos trabalharem em mutirões na agricultura e na construção de uma sólida infra-estrutura por no mínimo uns dez anos. Invista pesado em educação para produzir pesquisadores e mão-de-obra qualificada.

4 – Estipule uma média salarial de cinqüenta dólares (± R$ 90,00) e acabe com as leis trabalhistas sérias como a que temos hoje. Isso vai baratear os custos do Estado e atrairá multinacionais pela mão-de-obra barata.

5 – Leis Ambientais? Isso já não nos pertencerá mais… Elas que fiquem só no papel. Não se preocupe com a emissão de poluentes, desmatamento, lixo tóxico, o uso inapropriado dos recursos naturais, etc. Isso só impede o crescimento e os investimentos estrangeiros em seu país. Se precisar invista alguns milhões de dólares em propaganda pró meio-ambiente para acobertar. Com o controle da informação quem vai poder provar o contrário?

6 – Aproveite a falta de controle ambiental e de informação para sair construindo obras de grande impacto ambiental no intuito de crescer economicamente. Investir em usinas nucleares é um ótimo exemplo. Podem ser construídas em qualquer lugar. Se algum ambientalista reclamar atire nele. Se os EUA encher o saco use o urânio das usinas como material para armas atômicas. Isso acalma os ânimos internacionais.

7 – Aproveite a ausência de vigilância e controle da Organização Mundial de Comércio para falsificar os produtos fabricados pelas multinacionais em seu país. Use a tecnologia e os investimentos de empresas como a Nike, Honda, Apple, etc, para fabricar produtos similares e vende-los a preços irrisórios no mercado negro. Isso, além dos impostos, trará mais rendas ao Estado.

8 – Estipule metas de produção nos vários setores da economia e da burocracia estatal. Não perca seu tempo e dinheiro fiscalizando o bom andamento do progresso econômico. Se algum setor não atingir a meta de crescimento o Estado simplesmente prende os responsáveis e castiga toda a comunidade responsável pelo fracasso. Isso sim é motivação…

Eis aqui dois modelos de medidas econômicas, amplamente testadas, que podem garantir o sucesso do crescimento do PIB brasileiro. Se você achou a comparação entre estes países justa e está ansioso para crescer com altos índices ajude nossos políticos anti-governo na adoção de um desses planos econômicos. Agora, se você achou que é um preço alto a se pagar, pare de aborrecer os demais reproduzindo estas ladainhas do senso comum sobre economia, estude, e faça críticas econômicas construtivas e inteligentes.

7 Respostas para “Soluções Argentinas e Chinesas para o PIB Brasileiro”

  1. É…. e quem como eu conhece a Argentina muito bem, inclusive tendo familiares lá, sabe, esse país ja foi uma segunda Suiça. Parece-me é a maior média de anos de estudo, na America. “Los hermanos” não precisavam ter passado por essa. Eu me sinto muito bem com nosso país chegando aonde está chegando. Meus 60 anos me sugeriam perder a esperança neste país; mas Deus é maior e abaixo dEle só só Lula e Paloci…

    Alberto Miranda

  2. SHOW

    O texto é muito fantástico!

    Foi uma das melhores coisa que já li em termos de explicação econômica nos últimos tempos. Além disso, é a única piada de economista que consegui entender até hoje :)

    Tão fino, irônico e mordas quanto o seu texto do The Secret

  3. Parabéns ao Brasil. Crescer à 9% é coisa do terciro mundo. Então cresçamos como os ricos, chega de pensar como os pobres dos 9, 10%.

  4. Ricardo Marcilio Diz:

    Excelente exposição.
    Gostei muito.

    Mas queria observar/perguntar/questionar uma coisa:

    Já não vivemos uma política econômica quase igual ao da China entre a década de 60 e 70? Éramos uma ditadura rígida, despreocupada com leis trabalhistas e ambientais, com controle das informações, e que abriu o mercado para o mundo tendo um crescimento de 10% do PIB?

    Bom, seja como for, ainda é preferível um crescimento harmônico e sustentável com o bossal do Lula do que sacrificar nossa liberdade e direitos, como na ditadura militar, para garantir um passageiro crescimento econômico.

  5. mulheraoespelho Diz:

    idemmmm

    Jayme Diz:

    1 abril, 2008 às 1:17 pm
    SHOW

    O texto é muito fantástico!

    Foi uma das melhores coisa que já li em termos de explicação econômica nos últimos tempos. Além disso, é a única piada de economista que consegui entender até hoje

  6. perfeito desse jeito qualquer um consegue ate eu que num entendo nada de politica

  7. O problema do brasil são os estados nordestinos que não crescem. Infelizmente apenas as regiões sul e sudeste carregam o brasil nas costas. É preciso desenvolver o nordeste e o norte também. Nós, pauslistas, exploramos e desenvolvemos os estados de MG, PR,MS e muitos outros, através dos bandeirantes. Mas chegará um dia em que os paises mendigarão por alimentos brasileiros e aí sim, teremos um crescimento invejavel. Quanto aos argentinos, apenas SP já os supera economicamente. E quanto ao chile, o interior de SP o bate economicamente. Infelizmente temos apenas um SP. Quanto à china, aquele povo vive na miséria, comendo baratas e larvas. E além do mais trabalham como escravos.

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