Para que serve a filosofia? : Uma crônica em sala de aula

Para que serve a filosofia? : Uma crônica em sala de aula

Por Arthur Meucci

Primeira aula do ano letivo. Uma classe repleta de adolescentes cursando o primeiro ano do ensino médio. Vários seres sentados, conversando, esperando o professor se manifestar. O mestre se levanta. Coloca seu nome na lousa, a data, e o nome da matéria: Filosofia. Os alunos cochicham entre si. Um deles, mais desinibido, pergunta: “Professor, o que é filosofia?”. O professor sorri. Aproveitará a deixa do aluno para iniciar o seu curso.

Esse professor, um sábio experiente, não começará sua aula como a maioria de seus outros colegas. Deixará o texto da Marilena Chauí, da Maria Graça Aranha ou de Karl Jasper ,sobre o conceito de filosofia, de lado. Já aprendeu com a práxis docente que esta tática não funciona. Filósofos contemporâneos, falando sobre filosofia, deslegitimam mais do que ajudam. Assim como os pensadores clássicos ele vai direto ao ponto. “A filosofia é um saber que tem como pretensão uma postura crítica frente a realidade que o cerca. É um conhecimento que tenta satisfazer anseios subjetivos em relação a própria existência e sua relação com o mundo”. Receoso com o esquecimento de sua explicação o professor fala e ao mesmo tempo escreve o que é dito no quadro.

Os alunos ouvem e lêem em silêncio. Trocam olhares. Tentam entender palavras tão difíceis. Antes que eles percam o interesse e iniciem a bagunça o mestre, munido de seu habitus professoral, começa a explicar o sentido do conceito. Explica ainda que a filosofia, para efeito didático, foi dividida em três grandes áreas. O conhecimento e sua possibilidade, a ética (estudo sobre a ação) e a estética ou juízo (estudo sobre o valor). Evidencia que as reflexões sobre como “conhecemos” o mundo, como devemos “agir” ou como “avaliamos” as coisas são questões cruciais. Porém, não há interesse de muitos ramos do saber sobre essas questões. Não se espera que a matemática, a física, a biologia ou língua portuguesa tratem destes temas.

Após tal explicação um terço da classe está ganha. Há ainda dois terços que olham desconfiados. O bagunceiro, no intuito de aparecer, exibe-se à classe questionando, de maneira jocosa, o professor. Em seu íntimo ele é tomado pela inveja da posição central das atenções, ocupada pelo filósofo. Preso na caverna moldada pelo social, onde lá se deve pensar a vida em termos de lucro e benefícios imediatos, elabora uma pergunta com intenções sádicas para comprometer seu novo mestre. Em meio ao seu turbilhão de afetos ele indaga: “Professor, para que serve a filosofia? A matemática a gente usa pra contar dinheiro e tals. Na física estudamos movimento, velocidade, e é importante para o vestibular. Português ensina a ler e escrever. E esta coisa, para que serve? Dizem que só tem perguntas e mais perguntas. E, além disso, não tem respostas. Me parece que a filosofia e você não servem pra nada”.

Nesse instante ele gratifica seus desejos. A classe olha para ele. Há risos. Apoios. Seus sentimentos de carência e de inferioridade fálica (jargão psicanalítico) foram acalmados pelos olhares e risos de todos.

O sábio professor não perde a calma. Espera todos rirem e se aquietarem. Ele deixa o aluno se satisfazer e não o adverte, naquele dia, pelos palavrões utilizados em sua manifestação. Palavras essas censuradas pelo editor. O mestre se recorda de Paulo Freire, “O educador deve amar seu aluno”, apesar de no fundo ser um típico marxista e enxergar no aluno um “projeto de gente” que ocupa uma classe social que é sua inimiga. Neste momento ele amaldiçoou, no seu íntimo, a ineficiência de seu sindicato. Para satisfazer as inquietações ele responde ao aluno. Para tanto ele clama auxílio aos pensadores gregos, pais da filosofia ocidental.

Ele diz que a questão central da filosofia, levantada pelos gregos nos primórdios da civilização, era responder uma “simples” pergunta: “Como viver uma boa vida?”. Outros formulavam da seguinte forma, “Qual a vida que vale a pena ser vivida?”. O conhecimento filosófico e científico só se justifica sobre este aspecto. O saber serve para o homem escolher qual a maneira que ele acha mais adequada para se viver. Os remédios surgiram para vivermos mais e com menos dores, a mecânica ajuda o homem a viver confortavelmente. Com a matemática administramos melhor o mundo ao nosso redor. A filosofia, pai do saber, preocupa-se em responder como devemos proceder, com tanto conhecimento, para se viver da melhor maneira possível. Se há uma função primeira da filosofia é esta.

Aproveitando o ânimo dos alunos, o professor engata a segunda parte da resposta. Deixa claro que a filosofia, tendo como função formar sujeitos críticos que escolham, eles mesmos, qual a melhor maneira de conduzir a vida, não consegue ter respostas prontas para todos os casos. Será que existe uma única resposta para perguntas como “qual o melhor emprego para se ter?”, “qual, dentre as mulheres, é a melhor para se casar?”, “qual o melhor estilo musical para se ouvir?”. Dentre inúmeras possibilidades de se aposentar, “qual seria a melhor opção?”. Existiria um gabarito pronto para a vida? Ou então, uma fórmula para resolver todos estes problemas?

Nesse momento ele questiona. Se o aluno achar que existe repostas certas e válidas para todos os homens de como se deve viver, então a filosofia não tem serventia. O mais sábio a se fazer é seguir os pais, a televisão, ou o que os amigos mandam fazer. Caso contrário, é preciso pensar sobre a existência. Utilizar a filosofia como instrumento para se tornar um sujeito. Deixar de ser objeto dos outros. É utilizar tais conhecimentos para se viver a boa vida.

Ao término de sua explicação o professor conquista 80% dos alunos. Todos admirados pelas possibilidades apresentadas. O jocoso se encontra num conflito entre a presente alegria da resposta e a dor da castração simbólica de seu pequeno órgão. Vitória. Mas e os outros 20%? O sábio mestre não se deixa incomodar. Sabe que dentre eles há os semi-alfabetizados, os drogados e os trabalhadores braçais que utilizam a escola para dormir. Como filósofo virtuoso ele sabe que o mundo, por mais que ele se esforce, jamais será como ele realmente quer. Por isso, não se angustia.

29 Respostas para “Para que serve a filosofia? : Uma crônica em sala de aula”

  1. Kátia Pecoraro Diz:

    Será que vc me convencerá a voltar a ser professora?

    Um grande abraço…

    Kátia

  2. Mago,

    Parabéns pelo texto. Cativante!

    Grande abraço!

  3. Destaque para o excerto final:

    “Mas e os outros 20%? O sábio mestre não se deixa incomodar. Sabe que dentre eles há os semi-alfabetizados, os drogados e os trabalhadores braçais que utilizam a escola para dormir. Como filósofo virtuoso ele sabe que o mundo, por mais que ele se esforce, jamais será como ele realmente quer. Por isso, não se angustia”

  4. Em primeiro lugar, parabéns pelo texto. Com relação à pergunta, eu diria que, se aprendermos com a filosofia a sermos bons perguntadores, já teremos uma resposta bastante boa.

  5. Arthur,

    Leio seus textos há alguns meses,os quais tive acesso por meio do orkut.Bom texto(apesar de voce ta meio “metidão” nele) .Criticas à parte,aquele texto seu sobre “O Segredo” é precioso,muito bom!

  6. Olá! Essa é a primeira vez em que visito seu site. Adorei o texto sobre filosofa, é uma coisa que me interessa muito. Eu realmente sei como é, pois na minha sala da escola quase ninguém gosta de filosofia. Só a pequena minoria. Eu sou uma dessas pessoas. E, estamos lendo na sala o livro O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder. Que pena que ninguém sabe dar valor a essa oportunidade!
    :-)

  7. Grande Mago. Fez mágica novamente. Belo texto.

    Abraços pessimistas.

    Júlio, do exílio…

  8. Simples! Viríl!

  9. Raissa Fuganholi Diz:

    Sabe que dentre eles há os semi-alfabetizados, os drogados e os trabalhadores braçais que utilizam a escola para dormir. Como filósofo virtuoso ele sabe que o mundo, por mais que ele se esforce, jamais será como ele realmente quer. Por isso, não se angustia.

    Que ousadia! Que Cativante!

  10. Sady Carlos de Souza Jr. Diz:

    É justamente os 20% (?) que representam a necessidade de se mudar esta filosofia que para nada serve, ou pelo menos só tem reproduzido toda a nossa milenar violência, através também da omissão, como é o seu caso aqui neste texto!

  11. Caro Sady,

    Obrigado por sua participação.
    Acho que a filosofia já abaixou bastante seu grau de abstração e complexidade para atingir um número razoável de pessoas.

    No caso dos 20% a saída não é refazer a filosofia, pois não sei até onde isso seria possível. Há colégios do Estado onde se registra uma média de 33% só de alunos semi-alfabetizados. Sem domínio de leitura e escrita. Fora os drogados e os muito necessitados que freqüentam as salas de aula.

    Com absoluta certeza não será a filosofia que mudará este contexto!
    As coisas só mudaram quando a população se mover e tomar medidas mais radicais. Exigir uma CPI da educação pública em São Paulo, pedir a cabeça das Secretárias de Ensino e deixar de votar no PSDB e no DEM, partidos estes que já deixaram claro sua total falta de preoucupação com um ensino púplico de qualidade para a classe menos privilegiada deste país.

  12. Resposta ao Sady, não querendo influênciar seu juízo, mas é preciso saber a quer criticar.

    “Mas e os outros 20%? O sábio mestre não se deixa incomodar…”
    Sabe que dentre eles há os semi-alfabetizados, os drogados e os trabalhadores braçais que utilizam a escola para dormir”.

    Isso está além do papel da filosofia. É assunto político, governamental. É preciso haver condições básicas para que o professor possa “alcançar” esses 20%. Aliás, acredito que esses 20% não deveríam existir, mas como tal é impossível, ao menos que não houvesse número tão alarmante.

    Enfim não pretendo fazer maiores discussões por aqui, só estou mostrando minha visão.

    Sobre o texto

    Arthur, achei bom e interessante seu texto.
    Me parece que vc usa o conceito de filosofia pela visão de filosofia kantiana, relacionando com a “trilogia da crítica”.
    Me parece uma forma inovadora de abordar, apesar das controvérsias (como tudo na filosofia).

    “Por isso, não se angustia”.
    Creio impossível não se agustiar, eu me sinto agustiado por saber o problema, ver que está acontecendo e não poder fazer nada;
    ou até poder fazer, mas não sozinho;
    Saber que quem pode mudar não o faz, e a quem interessa a mudança, se conforta com a situação (em geral o papel do aluno e do cidadão)

    E como kant fala na pedagogia, a educação não é feito pelo singular, mas pela humanidade.

  13. Caramba, não sou professor, tive um ano de filosofia no colégio, odiava…O professor era legal, mas eu no ápice da minha evolução intelectual achava a filosofia a coisa mais inútil do mundo. Cursinho, abri minha mente, conheci platão, Marx, hegel, comecei a gostar de história, português e…filosofia…Este ano uma professora de redação me inspirou mais ainda o gosto pela coisa. Òtimo texto. Parabéns.

  14. DEOCLECIO TADEU Diz:

    A reflexão não difere muito dos outros textos de Marilena Chaui, Maria das graças e outros é a mesma cantica de grilo….

  15. [...] meu texto “Para que serve a filosofia?” gerou vários debates na internet e nas salas de aula. Atingiu seu objetivo principal de [...]

  16. Olá Arthur!
    Só deixando meu modesto comentário agora, mas, praticamente nada tenho a dizer a não ser parabenizá-lo…
    Uma visão fora dos filósofos “de praxe”, como a Chauí, Jaspers e Arruda Aranha, p.ex. são bem salutares. Não que estes pensadores não tenham seus méritos, mas são visões pessoais de mundo; a questão é que o mundo e as pessoas evoluem e transformam-se, mas sempre se retorna ao ponto inicial de tudo… Uma volta aos gregos é interessantíssima, ainda mais em minha opinião que sou adepta da “Teoria Do Eterno Retorno” nietzscheana…
    Há muita coisa boa que ficou lá atrás; há filósofos excelentes que foram “soterrados” pela avalanche do cristianismo e jamais tiveram a oportunidade de serem estudados…
    Como sempre, uma visão perspicaz!
    Abraços…

  17. Adorei. Estamos fazendo um seminário sobre filosofia e gostei muito de me deparar com este texto.

  18. Rafael Ramon Silva Lima Diz:

    Texto legal, mas como bem sabemos o verdadeiro filósofo busca sempre o que está alem de suas forças . E quando não há mais como prosseguir por ausencia de ferramentas então se age pela intuição.

  19. Excelente texto. Me ajudou muito na preparação de uma aula sobre a função da filosofia. Parabéns!!!!!!

  20. “sou” professora de filosofia, no ensino médio… e prefiro não comentar… férias janeiro 2009.

  21. Muito influenciador, senti preparada para o inicio do ano letivo…… Parabéns !!!!

  22. wilianne gomes fernandes Diz:

    seré que essa materia vai me convencer a ser professora um dia?

  23. Carlos Sergio Elias Diz:

    Excelente a crônica do Arthur, pois, relata a esperiência que vivemos em sala de aula. Ao ler, vivenciei os meus primeiros momentos que aconteceram da forma relatada. Isto, todas vezes que se inicia um curso. FILOSOFIA não tem a ver com nada, mas tudo tem a ver com Filosofia.

  24. Nossa achei muito enterresante esse texto .Me ajudou no meu trabalho

  25. Valeria Ribeiro Diz:

    Olá!!! Adorei essa crônica e adorei a possibilidade de apresentá-la ao meu filho que tem 19 anos e muitas vezes ñ consegue perceber a relevância que o estudo dessa disciplina tem para nossas vidas. Sinceramente acredito que essa seja uma disciplina que deveria ou poderia quem sabe ser ministrada já na educação infantil da rede pública de ensino, pois talvez pudéssemos contribuir de maneira significativa com a educação desses pequenos cidadãos. Mas, é claro que eu tb sei que por enquanto isso ñ será possível, pois para nosos governantes, para nossa elite brasileira o que interessa de fato é manter o povo a grande massa nas trevas, no escuro e na ignorância de nossas existências…mas eu na condição de mãe, cidadã e pretensa educadora continuarei resistindo a esses mecânismos sutis de exclusão do nosso ‘bem maior’: Educação Pública de qualidade. Um cordial abraço!!!

  26. Alan Delon Diz:

    Muito bom o texto, parabens!!! Como Professor de filosofia eu recomendo.

  27. Magnífico….!!!
    Adorei mesmo parabéns
    muito interessante mesmo essa crônica.

  28. ééééé anaum entendih abisolutamente NADA

    =)

  29. não gostei…mais tudo bem !!!

    orrivellllll!!!!!!!

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