O Pato Como Encarnação do Utilitarismo Afetivo
O Pato Como Encarnação do Utilitarismo Afetivo
Por Arthur Meucci
Um grande amigo, que se formou comigo na faculdade de filosofia, me procurou há uns quatro dias. Ele me abordou no intuito de pedir ajuda para resolver um difícil dilema existencial. Ele iria para o aniversário da sobrinha de sua namorada, a qual prezava muito, e estava indeciso quanto ao presente a escolher. Queria dar algo que agradasse a aniversariante, os parentes e a namorada. Porém, como especialista em lógica da escola de Carnap, estudo este que lhe consumiu dedicação exclusiva e anos de esforço, não se sentia qualificado para deliberar sozinho questões cotidianas como esta.
Como sabia que eu sou um filósofo de tendência analítica, conhecedor da maiêutica e que estuda as emoções, veio me pedir uma orientação. Inicialmente perguntei ao amigo quais eram os presentes que ele cogitava em oferecer. Ele respondeu que estava em dúvida entre dar um livro sobre o papel da mulher no socialismo, da Rosa Luxemburgo, ou um quadro de um metro por setenta e cinco centímetros de altura com o rosto da Simone de Beauvoir. Dois presentes exóticos, mas muito interessantes. Já previa que seria uma decisão difícil de tomar.
Para levá-lo à melhor escolha achei necessário contextualizar a situação. Perguntei ao meu amigo qual o engajamento social que tal senhorita tinha. Afinal, era preciso circunscrever o universo de socialização do agente para determinar à melhor escolha. Ele disse que não sabia ao certo. Na maioria eram amigas do prédio e coleguinhas da pré-escola. Eu me espantei. Perguntei a idade da menina e ele respondeu que faria seis anos. Fiquei apreensivo.
Questionei sobre o primeiro presente. Perguntei como um livro da Rosa Luxemburgo poderia alegrar uma menina de seis anos que não sabia sequer ler. Ele pensou um pouco e respondeu que isso seria uma gratificação de longo prazo. Mesmo que ela não soubesse ler os pais leriam o livro à noite, antes de dormir. Isso a imunizaria das idiotices burguesas de dominação de classe impostos pelo sistema capitalista através das estruturas televisivas dos programas infantis e da dominação ideológica imposta pelo sistema de ensino. Apesar de estranha sua proposta tinha sentido.
Em seguida perguntei como tal presente contribuiria para a felicidade de todos os demais envolvidos. Segundo ele o pai da menina é filiado ao PSB e provavelmente gostaria do presente. A namorada era marxista e sem dúvida adoraria. O único problema era a mãe. Ela não gostava de política e muito provavelmente não leria o livro para a criança. Perguntei se a mãe e a criança, tendo repertórios tão limitados sobre o tema, entenderiam o teor da obra. Ele pensou bem e achou que a ignorância difundida pelo sistema sobre o lúpem proletário dificultaria a exegese da obra, o que faria mãe e filha perderem o interesse.
O meu amigo, aos poucos, se desfez da idéia de comprar o livro. Passamos então a questionar o quadro da Simone de Beauvoir. Em que medida tal artefato seria causa da felicidade da menina, perguntei. Ele me respondeu que, assim como o livro, serviria como uma formação humanística gradual de longo prazo. Aos poucos a imagem de Simone, a quem ela aprenderia a idolatrar, se tornaria o símbolo de sua luta pessoal contra a opressão de gênero imposta pela dominação masculina em vigor na nossa sociedade machista latino-americana. Além disso, não precisaria saber ler para entender o presente. Tal idéia parecia fazer mais sentido, porém era perceptível alguns pequenos problemas nessa concepção.
Questionei sobre a repercussão familiar. A mãe, que se gabava por ser uma mulher autônoma e principal responsável pela renda da família, apreciaria. É um estímulo importante a mensagem feminista na construção da personalidade da menina. Já o pai, leitor de Lukács, sempre achou que o movimento feminista francês da década de setenta era promíscuo e um mau exemplo para a formação da mulher socialista. Certamente não gostaria da idéia. Já a namorada era indiferente quanto ao dilema. Porém, o apoiaria pela iniciativa de conscientizá-la.
Ao questionar sobre a pertinência do presente nesse contexto, meu amigo se angustiou pela constatação da ineficiência do quadro em atingir os objetivos libertários pressupostos inicialmente. A análise filosófica lhe mostrou que ambas as escolhas não atenderiam às necessidades de todos. Ficou triste. Perguntei então: Pense nos dois presentes. O que eles têm em comum para que você os escolhesse? Quais eram seus objetivos iniciais? O que você pensou que te fez escolher esses possíveis objetos?
Meu amigo filósofo foi para casa levando consigo estas perguntas. Três dias depois eu o encontro feliz da vida. Ele tinha acabado de sair da festa e veio pessoalmente em casa me agradecer pela ajuda prestada na escolha do presente. Disse que as perguntas que levou consigo foram fundamentais para o seu sucesso. Perguntei sobre o presente que escolheu, e ele me disse que ambas as propostas anteriores convergiram em um pato.
Achei muito estranho e questionei sobre os critérios deliberativo. Ele disse que foi simples. No fundo, o que unia os dois presentes anteriores era a necessidade inconsciente de polemizar e assim ser notado na festa. Ele pensou bem naquele sentimento e tomou a atitude de comprar um pato. Ele tinha noção que a criança adoraria o bichinho, o que de fato ocorreu. Os pais acharam estranho, mas gostaram da idéia de ficar com o patinho. Contavam pelo menos com alguns ovos futuros. Sua namorada o achou super fofo e prometeu que faria amor a noite toda. Por fim, todos na festa riram do presente esdrúxulo e vieram questionar sobre a escolha. Desse modo ele jogou a menina para segundo plano e passou a ser o centro das atenções na festa. Desejo intimo que graças a análise filosófica utilitarista ele conseguiu realizar.
FIM
25 Abril, 2008 às 8:50 am
Que seu amigo é criativo e esperto!!!
Escolher o presente aniversariante é complicado, porque quando dar esse para alguém especial, que acaba de dar uma olhada nele e faz esforço para sorrir: “Nossa! Adorei”. Mas depois ele vai jogá-lo ou doar para outra pessoa.
Que Pato!!! Excelente presente!
Quero ganhar um presente para o meu aniversário: Gatinho superfofo.
29 Abril, 2008 às 6:12 pm
O seu humor é fino, inteligente e sagaz.
Adorei a construção do texto.
Sou especialista em utilitarismo, e posso te afirmar que, por mais que eu tenha lido, nunca achei uma crítica tão fina, mordaz e certeira como a sua.
Você está de parabéns.