O que é a filosofia? Uma luta social por sua definição

O que é a filosofia? Uma luta social por sua definição

Por Arthur Meucci

O meu texto “Para que serve a filosofia?” gerou vários debates na internet e nas salas de aula. Atingiu seu objetivo principal de suscitar discussões sobre todos os mínimos pontos da crônica. Professores e estudantes de todo país postaram o artigo em diversos fóruns e blogs pela web. Recebi e-mails com elogios, críticas e relatos da dinâmica em sala de aula. Muitos blogs de respeito divulgaram o material.

Alguns de meus pares nas esferas filosóficas teceram críticas públicas acerca da definição de filosofia utilizada naquele artigo. Uns me criticaram por não usar a Marilena Chauí e outros por ter “reproduzido” a “velha” idéia de filosofia da autora, só que em outras palavras. Um colega de curso me disse que eu estava preso ao “obsoleto” pensamento kantiano e outros ainda usaram o termo neokantiano. Choveu empregos com terminações “ano” e “ismo” no intuito de classificar meu discurso numa tentativa reducionista. Há os que fizeram no intuito construtivo e houve os que agiram por inveja.

Mas a pergunta ficava, “o que é então filosofia?”. Os marxistas insistiram na concepção de que a filosofia era instrumento para conscientização de classe. Os fenomenólogos ressaltavam a tão manjada frase de Merleau-Ponty, “a verdadeira filosofia é a reaprender a ver o mundo”. Já os existencialistas ressaltam que a filosofia é um instrumento da liberdade. Os filósofos que ensinam psicanálise dizem que sua única função é transformar homens em sujeitos, e os invejosos, que não sabiam formular uma boa crítica, diziam somente que era uma porcaria.

Cada um tentou definir filosofia segundo suas próprias convicções ideológicas. Transformar o termo para impor sua postura como correta e dominante. Na linha do pensamento de Bakhtin, Michel Foucault e de Pierre Bourdieu poderíamos, diante deste quadro, afirmar que o conceito de filosofia, como todos os outros, é objeto de uma luta social pela sua definição legítima. Essa micro-luta por sua definição nas esferas filosóficas participa de uma macro-luta pela definição legítima de mundo.

O termo filosofia atende aos interesses mais diversos. Filosofia de mercado, filosofia cristã, filosofia oriental, filosofia pragmática, utilitarista, marxista, antiga, moderna, alemã, etc. Cada uma retrata um modo singular de interpretar e agir sobre a realidade. Luta para impor uma significação. Briga pela definição do bom mundo.

Independente da corrente adotada pelos meus poucos pares descontentes, segue aí uma lição. Não existe uma definição universal de filosofia. Um conceito certo, ou mesmo errado sobre este ramo de conhecimento. Como todo conceito ele é histórico, ou seja, já designou funções diferentes no decorrer do tempo. Para Platão incluía a matemática, para Aristóteles a física, para parte dos medievais a religião e assim por diante.

Porém, o que todos provavelmente devem concordar, segundo a “reta luz da razão”, é que a filosofia, independente da posição de meus adversários, reflete sobre o melhor modo de agir (ética), sobre a melhor maneira de pensar ou conhecer a realidade (conhecimento) e como devemos avaliar as coisas e pessoas no mundo (juízo/estética). E todas elas, desde o marxismo até a psicanálise, se preocupam com uma questão fundamental: Qual o melhor modo de viver.

Por fim advirto: Toda crítica é boa e eficaz ao conhecimento. É através da negação que chegamos à superação de nossas posições. Porém, ao tecer publicamente uma crítica pejorativa ao texto em questão, se pergunte exatamente se sua postura não é somente uma manifestação de uma perspectiva singular sobre o mundo. Se você, sem saber, é um ingênuo soldado diante de uma guerra ideológica. E se a postura filosófica que você propõe não se enquadra em pensar o conhecimento, a ação, os valores e a possibilidade de uma postura que visa um “viver” melhor.

9 Respostas para “O que é a filosofia? Uma luta social por sua definição”

  1. tennesseecps Diz:

    Olá,

    Havia lido o post anterior e para mim foi inevitável pensar que aquele post soava como uma provocação, um convite a discussão.
    Enquanto graduando de licenciatura em filosofia, adoro discutir essa questão. Todos os dias vou ao estágio me perguntando “o que é filosofia?”.
    Achei interessante a sugestão de conceito histórico. Mas, ao mesmo tempo, lembro das disciplinas de graduação que em muitas vezes possuem apontamentos para distintos momentos históricos da filosofia, pois hoje, nos debruçamos sobre os momentos históricos que originaram conceitos distintos de filosofia, mas diferentemente desses momentos históricos, em muitos lugares, predicamos filosofia ao debrucar-se sobre esses momentos históricos.
    Por um tempo pensei em radicalidade: estudar filosofia é uma coisa e estudar história da filosofia é outra. Mas, com o tempo, comecei a perceber que muitas carreiras filosóficas, é claro, acadêmicas não conseguem romper essa barreira da pesquisa histórica.

  2. Dilma Stnezberg Diz:

    Seu texto é muito bom.
    Um marco

  3. Acredito que sua posição em relação à história da filosofia, seja ela mesma uma postura filosófica, haja vista que a própria atividade do filosofar poderia recair numa proposição puramente do senso comum, em que algumas pessoas, que não se propõem a estudar sistematicamente ” o que é filosofia “, poderão recair. É pelas várias filosofias que se faz ” o filosofar “; não se podendo, jamais, prescidir-se da História enquanto produto do pensamento pensado, Hegel, devendo-se atingir sua finalidade em seu determinado tempo, sub specie temporis, mas se atendo ao principal objetivo de todo filosofar : que é o universal, sub especie aeterni. É claro, que as pesquisas históricas se faz necessária a qualquer discursso que não se pretenda solipsista em sua verdade, pois qual sujeito em si teria a participação no pensamento que se pretenda ” verdadeira ciência ” ? Desde os pré-socráticos, intentamos sair do senso comum, da mera opinião, da doxa platônica, para nos alçarmos ao Todo, ao Universal, aos princípios e causas primeiras da natureza, do mundo e por fim, kantianamente, ao sujeito e ao objeto, em que se vê a filosofia como uma epstemologia da modernidade, da história da própria Razão, que não é solitária da História – como o vemos nos iluministas – Se naõ tivermos que nos ater à história da filosofia, como filosofar e provar o pensamento fora da tradição que o concebe ? Não obstante, a filosofia se faz presente ao sujeito pensante sobre o espírito de seu tempo, como Hegel em sua História da Filosofia, ou mesmo seu contraponto, Nietzsche, que permenece devedor da tradição pré-socrática: portanto, devemos saber em que âmbito podemos realmente filosofar sem saber da história de nossa própria ciência filosófica, a única que pode arcar com seus próprios imbróglios metodológicos históricos.Obrigado. Sérgio Dourado – BH, MG

  4. RETIFICAÇÃO : PRESCINDIR – FALTAR COM …

  5. [...] Filosofia. Os alunos cochicham entre si. Um deles, mais desinibido, pergunta: “Professor, o que é filosofia?”. O professor sorri. Aproveitará a deixa do aluno para iniciar o seu [...]

  6. Meu caro,

    Não acho que a idéia de filosofia como conceito histórico tenha qualquer relevância para a definição de filosofia. Acredito que uma definição de objetos complexos deve ser antes de tudo ilustrativa. Não li seu outro artigo, mas se ele remete a Marilena Chauí não creio que seja dos melhores. Nunca vi um livro com tantos erros acerca de questões elementares quanto o da “filósofa” uspiana. Mas, não posso julgar o seu texto sem ter lido e não o farei, mas vou julgar o comentário do hegel1 acima. Não diz nada com nada e foi escrito por um sujeito que quer se mostrar sábio exibindo a profundidade de sua erudição tosca através de citações latinas sem muito cabimento e desprovidas do sentido que ele acha que tem. Note que ele errou em português mas não em latin, Rs. Filosofia tem que ser clara e argumentativa, são dois critérios básicos.

    Abraço.
    Continue escrevendo.
    Dídimo Matos

  7. carolina costa Diz:

    eu acho que a filosofia pode ser traduzida em apenas uma palavra “pensar”

  8. Porcaria seu trabalho!

  9. ksaoksoaksoa slá

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