O Jogo de Futebol e o Caso Nardoni: Retratos de uma Luta de Classe

O Jogo de Futebol e o Caso Nardoni: Retratos de uma Luta de Classe

Por Arthur Meucci

É quarta-feira e chego tarde ao lar. Volto do meu curso de psicanálise. Cansei-me trabalhando e estudando. Queria comer um hambúrguer e relaxar. No apartamento estava meu grande amigo Sérgio, tomando coca-cola e assistindo o jogo do São Paulo na libertadores. Não gosto muito de futebol, mas me solidarizei com ele. Conversamos e reclamamos de seu time, do juiz, da política munipal, etc. Tentei relaxar assistindo TV e comendo meu lanchinho. Coisas da vida.

Eis que para meu desespero, em um determinado momento, a Rede Globo deixou de transmitir o jogo de futebol para passar algo muito mais insuportável: a prisão de Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá, acusados de matar a menina Isabella. Novamente o assunto voltava forçosamente à tona. Enquanto filmavam o vidro fumê do camburão, onde estava preso o casal, o time do São Paulo fez um gol. Esta informação nos é dada pelos que assistiam TV a cabo e gritavam da janela. O repórter, minutos depois, avisou do ocorrido mas disse que o telespectador poderia ver os melhores momentos do campeonato no Jornal da Noite.

Meu amigo Sérgio ficou irado e eu aborrecido. Não que eu me importasse com o jogo. Somente não agüentava mais a chatice do caso Isabella. Um monte de jornalistas forçando comoção e um bando de telespectadores satisfazendo inconscientemente suas fantasias sádicas ao consumir vorazmente informações sobre o caso. Ambos ganhavam com o assunto: um se beneficiava da audiência e o outro alimentava sua pulsão sádica acompanhando o caso e pedindo pena de morte para o casal. Festa na terra dos neuróticos. Quem sofre são os vizinhos que moram ao lado disso: os “normais”.

O que me chamou mais atenção neste episódio foi a violência de classe cometida pelo veículo de comunicação. O jogo de futebol, produto televisivo atribuído as classes menos “nobres”, cede seu espaço para um irrisório desfecho do caso que retratou a morte de uma menina de classe média paulista. Para a Rede Globo a prisão do casal Nardoni é muito mais importante que o jogo de futebol ao vivo. Filmar o camburão dos assassinos tem maior relevância, para a elite, do que o gol feito durante o jogo. Não seria mais conveniente deixar o jogo correr ao vivo, pedir ao narrador para comunicar a prisão do casal, e depois mostrar os carros de polícia no Jornal da Noite, que iria ao ar 20 minutos depois? Claro que sim, mas…

Se a televisão fosse um ser humano poderíamos dizer que ela incorreu numa parapraxia. Em outras palavras, algo como o ato falho, onde por meio de um equivoco ao agir expressamos nossos desejos inconscientes. Ficou clara sua posição de preferência social pelos espectadores. A noticia participou de uma luta muito maior pela sua definição e legitimidade. Ela se mostrou reflexo de uma luta de classe.

No tocante ao caso em questão a hipocrisia é muito reveladora. Há dezenas de crianças morrendo por mês nas lavouras de cana-de-açucar, outras centenas falecendo ou sendo mutiladas na produção de tijolos, telhas, caixas d’água (amianto), ou quebrando pedras para atender a construção civil. Certamente morreram muito mais crianças, vítimas da exploração do trabalho infantil, para construir o prédio onde morreu a menina Isabella. Porém, ninguém se inquieta. As pessoas continuaram comprando materiais de construção, abastecendo seus carros com álcool e tomando seu chocolate com açúcar sem se indignarem. Afinal, são filhos de pobres, negros e nordestinos. Por que iriam se comover?

No fundo assistimos um grande complô mascarado. O noticiário e o jogo foram patrocinado por grandes empresas do setor de construção civil, alimentos e combustível que enriquecem com o suor e o sangue de crianças. Ganha a Rede Globo. O telespectador, por outro lado, se beneficia dos preços módicos que tais produtos possuem. Afinal, não incluíram os encargos trabalhistas no preço final destes. Além do mais, criança morta é criança reposta. Por que se preocupar? É trabalho e controle da natalidade ao mesmo tempo, Há ainda quem culpe o Governo Federal por fiscalizar a exploração da mão-de-obra, que gera aumento no preço dos produtos. Gerando inflação e “extorquindo” a classe média. Coitados. Por desencargo de consciência continuarão projetando seus defeitos morais no casal Nardoni. Todos negarão, uma vez mais, os horríveis males produzidos pelo sistema de exploração de classe.

10 Respostas para “O Jogo de Futebol e o Caso Nardoni: Retratos de uma Luta de Classe”

  1. Nossa, que chute nas viceras.

    Seu artigo me arrepia.

    Doloroso, mas necessário, ler isso.

  2. Olá!

    Meu nome é Roberto, sou jornalista e participo da comunidade Filosofia e Psicanálise do Orkut.

    Meu caro Arthur, a sua análise é bastante coerente e sua proposta é interessante! Ela me fez lembrar o livro “A Sociedade do Espetáculo” de Guy Debord.

    O que é e para que serve afinal a mídia e os meios de comunicação? Para informar? Para criar consciência? Para unir a sociedade? Enfim, existem muitas teorias…

    O que acontece é que você tocou num ponto chave – a mídia privada (empresa privada) está preocupada com o lucro que a audiência dá e por isso dá mais ou menos ênfase para os acontecimentos cotidianos. Ou seja, há um estudo sobre o que pode dar ou não audiência e pelo que parece, um caso como o de Isabella chama muita atenção! Por que?

    Porque trata-se de uma família de classe média aparentemente bem sucedida que por algum motivo ainda não desvendado entrou em colapso e cometeu um ato insano.

    Entendo o porque da hipocrisia citada por você, afinal de contas a sociedade sabe que existem casos semelhantes e até piores no cotidiano com dezenas de milhares de crianças em todo o país e não está nem aí, afinal de contas, tratam-se de crianças pobres, nordestinas etc etc e cuja exploração faz parte da estrutura social – por isso fica escamoteado.

    Por isso que eu te digo: A mídia é apenas um retrato da sociedade e não o contrário! A mídia apenas está preocupada com o lucro que pode gerar através da audiência e por causa disso gasta rios de dinheiro com pesquisas de marketing para conhecer como pensa a maioria! A mídia é uma empresa e como tal, pensa nos lucros! Veja bem, não quero defender a mídia, mas apenas informar a realidade. O problema maior é o povo que além de ignorante e não ter o mínimo de senso crítico, aceita e com prazer o espetáculo grotesco ao preferir assistir em “real time” duas pessoas serem presas e previamente julgadas pela própria sociedade (sendo que ainda não foram declaradas realmente culpadas) para ocultar os seus próprios problemas.

    Lembra-se do apedrejamento de Maria Madalena na história bíblica? Pois bem, como disse Jesus, “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”. As pessoas que praticamente passam o dia e a noite em frente à casa dos Nardoni, em frente à casa dos pais do Nardoni, em frente à delegacia e querem fazer justiça com as próprias mãos esquecem que também são passíveis de atos falhos, de loucuras e atrocidades, pois também são humanas. As pessoas querem praticar a lei de Talião (olho por olho, dente por dente), mas esquecem que também são fracas.

    E com tudo isso existe uma mídia que cria toda uma situação de espetáculo e faz com que a raiva da sociedade ainda se torne maior – talvez para amenizar a frustração social mediante o controle e manipulação da minoria sobre a maioria. Afinal, quem se preocupa em julgar o próximo, esquece dos próprios problemas…

    Muitas teses podem ser levantadas com esses acontecimetos e com certeza muito ainda pode ser escrito, pois o assunto é muito rico!

    Um abraço!

  3. Daniel Grandinetti Diz:

    Discordo. Um caso como o de Isabella sempre foi explorado principalmente por redes de TV sensacionalistas que se dirigem ao telespectador mais pobre. É o telespectdaor mais pobre que consome notícias sensacionalistas sobre violência. Sempre foi assim! Não importa a classe social da vítima. As pessoas que ocuparam a porta da delegacia e a porta do prédio onde se refugiou o casal acusado são pessoas de classe social baixa. Não havia pessoas de classe média ali.

    Por sua vez, o futebol é consumido por todas as classes! E, principalmente a torcida do SÃO PAULO é muito mais elitizada que a dos outros clubes paulistas, por exemplo. Um simples foco na torcida do São Paulo mostrará o bom nível social de seus membros.

    Acho insuportável essa paranóia marxista que vê preconceito de classes em tudo e que quer explicar o mundo inteiro em termos da “luta de classes”. O caso da repercussão da morte de Isabella, por exemplo, não pode ser reduzido à luta de classes. Tentar explicá-lo dessa forma é simplesmente superficial.

  4. Os programas policiais que falam desse caso ininterruptamente têm a maior parte de sua audiência das classes C e D, que são as mesmas pessoas que montam acampamento na frente da casa dos Jatobá, da penitenciária, do IML, pedindo o linchamento do casal de assassinos. As classes mais desfavorecidas compõem a maior parte do “público fiel” do caso Isabella.

  5. Eduardo Salatiel Diz:

    Primeiramente, parabéns pelo artigo!

    Ainda esses dias comentava com amigos o fato de uma mãe ter matado o filho numa cidade da Região Metropolitana de BH. O caso não mereceu tanto destaque… foi digno apenas de uma pequena “nota” num dos tablóides de 25 centavos vendidos na capital mineira, umas falas comoventes de alguns radialistas e nada mais. Afinal, tratava-se provavelmente de uma “da Silva” e não de um “Nardoni”.

  6. Túlio César G. Heliodoro Diz:

    O papel primordial da mídia é informar a sociedade e ajudar o cidadão a construir e fundamentar opiniões sobre fatos por ela apresentados..

    Mas, a mídia não serve pra “instingar” o cidadão a atropelar o poder Judiciário e fazer justiça com suas próprias mãos…

    Não! O papel da mídia nessa história toda foi transformar o caso em um total circo em que uma avalanche de acusações foi brutalmente jogada sobre o casal acusado antes mesmo de qualquer coisa ter sido apurada!

    Uma aberração que enquanto deveria nos comover e fazer-nos ansiar por justiça acaba por nos mover pra o “linchamento” dos acusados, em uma total comprovação da sociedade cultuadora de violência em que vivemos, na qual a lei do Talião é regra.

    “Olho por olho e dentes por dente, acabará por nos deixar todos cegos e sem dentes” (Mathma Gandhi)

  7. Não sei qual é pior.. futebol ou Nardoni…. tanta porcaria na tv, enquanto isso o pessoal esquece das CPIs… e tentam culpar o cara que espalhou o o dosie ao inves de punir os verdadeiros culpados.

  8. Concordo com você: é luta de classes sim!

    A mídia mais “produz versões” de fatos do que os informa… Ela impõe modos de conduta, tiram e põe políticos no poder, fala o que bem quer, detém “o poder de informação”… “Poder” para manipular seguimentos sociais: “a mídia a serviço do poder”, invariavelmente.

    A mídia tem como papel informar, logo é papel do telespectador ter uma opinião crítica sobre os fatos informados??? “(…) paranóia marxista que vê preconceito de classes em tudo e que quer explicar o mundo inteiro em termos da luta de classe.Tentar explicá-lo dessa forma é simplesmente superficial”?!?!?!?!
    Oras!

    Em primeiro lugar, como falar em “opinião crítica” de populações oprimidas, em um “contexto histórico-social trágico”, no qual lhes são negados seus direitos de cidadãos, como educação, por exemplo, que é um caractere fundamental para a formação de um indivíduo autônomo e crítico?

    … nossas crianças deixam de estudar para garantir o sustento de suas famílias, que “sobrevivem” em condições precárias, na miséria árdua… humilhadas pelo sistema, vivenciando situação de risco “bio-psico-social” a todo instante, desde o seu nascimento (herança histórica)… são negados seus direitos a habitação, saúde, educação, saneamento e etc… e nem com 5 anos de trabalho (semi-escravo), não conseguirão comprar o objeto de consumo da moda, que aparece no comercial do “horário nobre”, ou que os atores usam nas famosas novelas brasileiras, exibidas internacionalmente. Será que a maioria da população brasileira se identifica com estes padrões de “vida normal” que são exibidos diariamente na “novela das oito”? … as favelas brasileiras são do jeito que é “pintada” a “Portelinha”? … Ah é, agora “tá na moda” fazer assistencialismo!
    E os jogadores de futebol que ganham milhões, fora os outros milhões que rolam por debaixo dos panos… enquanto que muitos telespectadores não possuem condições para comprar um tênis para jogar bola (dos mais baratos) ou até mesmo uma sandália havaianas???

    Sabe-se que o ensino “fundamental” da escola pública brasileira não funciona efetivamente como ferramenta de formação de sujeitos autônomos e críticos, salvo exceções, claro… mas na sua grande maioria…
    Tanto, que apareceu um projeto para retirar da grade curricular das escolas públicas as disciplinas de ciências sociais, psicologia, filosofia entre outras… Qual o objetivo disso?
    … esta notícia não foi divulgada pela mídia!!!

    Em segundo lugar, se a mídia não manipula informação, por que, então, a “TV Senado” não é um canal de “tv aberta”?… ao invés das programações serem alienantes, “propagadoras” de valores sociais, supervalorizando os bens de consumo e não mais o ser-humano, por que será que não se vê no horário nobre, ou em qualquer outro horário, programações que estimulem a opinião crítica da população?

    Simples: porque não “dá dinheiro”!

    Ao contrário… não se transmite ferramentas para a formação de um sujeito autônomo em rede nacional, pois “ter opinião própria/crítica” significa “ter poder” para escrever a própria história e não em padrões pré-determinados… ter poder significa não ser manipulado pela “a norma” dos “normais” que a ditam como verdade única, universal e atemporal. Transmitir essas ferramentas significa transmitir poder… não se transmite poder para o “cidadão de baixa renda”… o poder está históricamente institucionalizado a favor de uma minoria… não há “vantagens” para esta minoria que detém o poder, como a elite, mídia e instituições de políticas públicas em geral, que a população desfavorecida tenha opinião crítica… pois, assim, correm o risco de perder “o poder de manipular”.

    Na minha opinião… tanto o caso Nardoni, quanto os “clássicos do futebol” são ferramentas para se camuflar o que acontece por debaixo dos panos… camuflar o que a população “não pode saber” e, assim, garantir a manutenção do poder… e o alienado não é só o desfavorecido socialmente! Violência só é comum em comunidades pobres: é o que a mídia retrata diariamente… e quando “aparece” um sujeito de classe média ou “classe A” envolvido nestes eventos é novidade, raridade… até parece! Mas tem gente que acredita! … tanto, que manipulou emoções da massa para o evento Nardoni, visto na porta do prédio, da delegacia e no super-mega evento em “solidariedade” a mãe da menina… que inclusive teve a presença do “padre lá”, daqueles “cantores e atores lá”… todos “daquela emissora lá”!

  9. Grazielle Vital Da Silveira Diz:

    Olá…..É a segunda vez que acesso seu blog,a primeira foi para ler seu artigo sobre o Segredo,e como da primeira vez fiz muito bem em ler seu artigo,gostei muito,é um alivio perceber que mais pessoas conseguem ver o q essa midia golpista (global)faz ……
    Saudações Camarada…..

  10. Bom o texto !

    Fico feliz de saber que a mídia não consegue enganar a todos ! que bom que pessoas como você conseguem ver os fatos como eles realmente são e nao baseados em ideologias impostas por grande parte de nossa mídia.

    Foi realmente ridiculo dar tanta repercussão a este caso em particular estando em um país em que tantas crianças morrem diariamente de formas tão ruins quanto e de formas muito piores !

    Devemos sempre manter um olho na mídia e um olho fora dela ! para que saibamos o que os nossos meios de comunicação andam “ensinando” para nosso povo e para nao nos deixarmos influenciar.

    Abraços.

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