A Ataraxia Filosófica Vista como Doença: Um Equivoco Psicanalítico

A Ataraxia Filosófica Vista como Doença: Um Equivoco Psicanalítico

Por Arthur Meucci

Ao procurar no Google por uma informação referente à genealogia da filosofia estóica me deparei com um site que me surpreendeu negativamente. Referia-se a reflexão de um provável analista, ou estudante de psicanálise, que atribuía ao estado de ataraxia uma provável doença do sistema psíquico. Este conceito grego referente à tranqüilidade da alma, utilizado por epicuristas e principalmente pelos os estóicos, estava sendo questionado. Ele perguntava se manter a tranqüilidade durante momentos turbulentos da vida seria sinal de uma virtude filosófica ou se era resultado de uma patologia psíquica.

Esta posição que eu tinha lido me era familiar. Ao reler alguns livros e anotações que fazia durante meu estudo semanal de psicanálise me deparei com tais referências. Em específico Charles Brenner, em seu clássico livro de introdução à psicanálise, descreve um mecanismo de defesa do ego chamado “isolamento”. Neste mecanismo o ego dissocia uma idéia ou lembrança que traz uma emoção dolorosa (BRENNER, 1975). Assim, frente a uma ameaça ao sistema, o ego não carrega consigo o sentimento que lhe traz desprazer. Ele evita associações indesejáveis.

Esta tática de autoproteção psíquica pode evoluir a tal ponto que pode se transformar, em casos de psicoses, num embotamento afetivo. O individuo se torna incapaz de sentir ou expressar suas emoções. Dadas tais características alguns psicanalistas como Brenner associam este sintoma com a imagem caricatural da filosofia epicurista, estóica e cética (p. 102). Alguns menos ajuizados como Lacan, ao se referir a estes filósofos no escrito Kant com Sade, insinua que “A ataraxia destituí sua sabedoria”. Como se a busca da tranqüilidade psíquica, pregada pela filosofia, fosse uma tática de defesa do ego para suprimir as emoções.

Tal concepção do conceito é um equivoco que tem como base uma visão estereotipada destas filosofias. Tais correntes do pensamento foram as que mais se preocuparam com as emoções e sua devida expressão. A busca estóica era justamente a possibilidade de ser feliz através do estudo das emoções que nos fazem alegres e tristes. A ira, o ódio, o desespero, a angústia, o medo e todo tipo de afeto apequenador faria parte de uma condição humana impossível de se superar. Porém, através de uma análise racional, poderíamos diminuir nosso sofrimento ao entendê-los.

Para um estóico toda emoção ruim se origina na frustração. Quase sempre na tensão que existe entre o “mundo que se deseja”, “mundo representativo do sujeito” e a realidade como ela se apresenta. O mal-estar ocorre no contato entre o mundo fantasiado do prazer e o mundo real. Para se viver bem com a vida é preciso aceitar que o mundo desejado não existe e nunca vai existir. Admitir que a natureza e os demais seres humanos não se curvarão às nossas vontades.

Logo, o que o ensinamento filosófico ensina é exatamente o oposto do estereotipo de alguns psicanalistas. O filósofo não se desespera ao bater o carro porque medita, consigo mesmo, criando uma consciência das eventuais fatalidades que pode ocorrer com seu veículo. “Não há carros indestrutíveis, nem motoristas perfeitos”. Isso não significa abandonar os sentimentos e emoções, mas somente não se perturbar com as possibilidades imaginárias de se bater o carro, ou mesmo com a fatalidade em si. Se perdemos a cabeça com uma namorada que passa horas no telefone com as amigas, sabemos que o problema de nossa tristeza não está nela. O problema está em não aceitar como a namorada é na realidade. Não admitir que nos relacionamos com uma representação fantasiosa, criada por nossos desejos, que é desmentida o tempo todo.

A prática da ataraxia tem com fundamento aceitar o mundo como ele se apresenta. Aceitar que existe dor, sofrimento, tristeza, angústia, medo, ira e outros males do qual não estamos imunes. Nunca significou o abandono das emoções e sim uma reflexão pormenorizada de tudo o que sentimos. Relacionar os nossos desejos frustrados com os eventos que nos entristecem. A tranqüilidade da alma se dá justamente no entendimento de nossas emoções e desejos e não na sua supressão. Além disso, a idéia de que toda representação deve estar associada com uma emoção, conceito pilar da psicanálise, surge com a filosofia estóica e foi amplamente utilizada por Freud.

BRENNER, C. Noções Básicas de Psicanálise. São Paulo: Ed. USP&Imago, 1975.

9 Respostas para “A Ataraxia Filosófica Vista como Doença: Um Equivoco Psicanalítico”

  1. Osvaldo Ap.A.Ardana Diz:

    ” O filósofo não se desespera ao bater o carro porque medita, consigo mesmo, criando uma consciência das eventuais fatalidades que pode ocorrer com seu veículo. “Não há carros indestrutíveis, nem motoristas perfeitos”. Isso não significa abandonar os sentimentos e emoções, mas somente não se perturbar com as possibilidades imaginárias de se bater o carro, ou mesmo com a fatalidade em si.”

    Parabens pelo dicernimento , também sou da opinião que os instrumewntos do otimismo, sem abuso ou exagero, da confiança, sem a irresponsabilidade que se leva aos desatinos , da alegria , sem as ambições do gozo excessivo ou da inibição, da busca da auto-realização, sem fugas do mundo nem exacerbação dos seus convites, de esperança , sem a resignação estática dos inúteis ou a aflição dos desarvorados, constituem meios eficazes para se trabalhar o prórpio vir-a- ser.

    Se traduzires para a vivencia cotidiana, tera material para um livro.
    Parabens.

  2. Filosofia não presta

  3. A ataraxia enquanto nos leva à visão do mundo tal como de fato é, só pode ser positiva. Livra-nos de cairmos em um otimismo exacerbado no qual passamos a ignorar a ausência do mal e a cairmos na fuga de todo e quaquer realismo.
    Pois, se sabemos que somos seres estando-aí à mercê de todo risco que a vida e nosso mundo das dores nos oferecem, constitui-se grave perigo a propensão de ignorarmos o mal.
    Lógico que não somos übermenschs, mas como humanos essencialmente humanos, devemos buscar um modo de vida menos sofrido possível.
    A paz e a tranqüilidade não estão nas mãos da multidão, daí surgem doutrinas preciosas tais como as do estóico Sêneca, doutrina esta que jamais deve ser interpretada como uma doentia ausência de realidade, mas o oposto de tudo isso. Parabéns ao Arthur Meucci!

  4. Achei muito interessante a discussão, e inquietante por um aspecto. Me assombra, nas ciências humanas, o risco sempre iminente de “psicologizar” demais as coisas. Temo quando a busca por um conhecimento mais consistente escorrega em raciocínios forçados, como parece ser o caso da análise da ataraxia pelo presumido psicanalista/estudante de psicanálise. Como a frase atribuída a Freud refere (e acho que essa frase é providencial), às vezes um charuto é apenas um charuto, bem como uma atitude conformada madura perante os percalços da vida é, apenas, um entendimento de com as coisas são.

    Acho que às vezes um profissional com formação insuficiente, ou cognitivamente limitado, ou motivado por questões diversas (como por exemplo reproduzir idéias distorcidas ou mal-compreendidas de seu grupo de formação em psicanálise), ou que, simplesmente, quer se mostrar mais inteligente do que realmente é, acaba sendo mais nocivo no tratamento do que o próprio sintoma do paciente. É de dar medo se tratar com profissionais com estas falhas na formação.

    Parabéns pelo comentário, pela análise lúcida e pelo texto claro. Grande abraço.

  5. Classificar diferentes maneiras de se perceber o mundo como patologias é no minimo preconceituoso, diferenças existem e devem ser aceitas. Deve se tratar como doença ou problema apenas aquilo que traz ao individuo desconforto ou alguma espécie de dano, querer que todos sejam iguais é tirânico, antes de tentar mudar ou “consertar” os outros devemos buscar entender as diferenças.
    Talvez esses individuos que apresentam uma capacidade de distanciamento maior possuam uma visão mais clara da vida…devemos cega-los então?

  6. EXCELENTE PARA MIM,NÃO SEI SE ESTOU TOTALMENTE CERTO,MAS PA-RA M-I-M ESTÁ MUITO BOM!!

  7. Mariana Estrella Diz:

    Realmente, aquele cara que un iu ataraxia à doença viajou mesmo!!! Não entendeu nada! ;) Adorei a resposta

  8. Excelente análise. Parabéns!

  9. Leonardo M Diz:

    Nao consigo entender a expressao “arataxia” como uma doença, como uma forma de aceitação do mundo, do jeito como ele é.isso já contraria todos os mais importantes princípios filosoficos, como a propria razão. Arataxia é a tranquilidade da alma guiada pela razão. E isso não significa que dispensa todo e qualquer tipo de emoção. No acidente de carro, entrar em desespero so vai piorar as coisas, so a razao tomara controle da situacao. ( e isso resulta na arataxia..)

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