A Angústia de Viver: Ou de como Viver a Angústia
A Angústia de Viver: Ou de como Viver a Angústia
Por Arthur Meucci
“Nascemos na angústia, morremos na angústia” (Comte-Sponville; in: Bom dia, Angústia!). “O resto é tristeza” (Júlio Pompeu em comentário). Eis uma das observações preliminares que ambos os filósofos fazem sobre os sentimentos humanos ao refletirem sobre a vida. Eles tecem alguns pesnamentos, segundo um viés espinosano, sobre o afeto em questão. Um sentimento que para muitos parece sem importância pensar. Na maior parte das vezes ignoram sua existência ou fogem dela.
Como um bom discípulo dos estóicos eu aprendi, com Sêneca, que o caminho para uma vida boa não se dá pelas vias do desejo, como defendia Epicuro, nem na preocupação em planejar uma vida viável, estável e próspera, como acredita o senso comum. O primeiro passo para se viver bem, na medida do possível, está justamente na tomada de consciência de tudo aquilo que nos entristece. Refletir sobre tudo aquilo que nos priva da tranqüilidade (ataraxia) e do prazer.
Mas se o caminho para a alegria é refletir sobre a tristeza, como deixar de pensar em um afeto tão marcante como a angústia? Eis um sentimento tão forte que nos acompanha por toda nossa trajetória existencial. Vivemos angustiados no serviço, na escola, no relacionamento, em casa, com nosso futuro, etc. A angústia, junto com a ansiedade, constituem a maior parte de nossos males.
Mas será que já nasceríamos angustiados, como escreveu Comte-Sponville? Ou será que todo aquele choro nada mais é do que o medo? Perguntas complicadas, porém não tão difíceis de responder. Para filosofias de tradição epicurista, estóica, espinosana, schopenhauriana, e outras, a angústia se caracteriza pelo desprazer oriundo da expectativa de algo ruim. Desconfortável ou doloroso. É a quase certeza de um mal que está por vir. E o medo? Seria algo diferente? Quando estamos com medo de alguma coisa, como a morte, por exemplo, nos entristecemos com algo que pode ou não acontecer no futuro próximo. É, igualmente, a expectativa de um porvir desagradável. Para alguns a diferença entre a angústia e o medo reside no grau de certeza em relação ao temido evento. Eu particularmente não concebo uma real distinção.
O fruto da angústia e do medo é a expectativa de um futuro triste. Logo, é a expectativa o motor de tal dinâmica nefasta. Mas onde podemos identificá-la? De onde ela surge? Na maioria das vezes de outro afeto que é irmão siamês do medo: A esperança. Sim leitor, pasme…
Definimos a esperança como uma provável alegria oriunda da expectativa de algo bom. Desejo por algo que pode nos alegrar. De uma felicidade futura. É deste desejo, que está por vir, que se origina a ansiedade. Percebemos que a esperança está para o medo assim como a ansiedade está para a angústia. O que muda é a expectativa em um futuro alegre ou triste. Por isso, para que haja medo, é necessário esperança. O contrário também é verdadeiro. Se nos angustiamos por uma possível bronca do chefe é porque, no fundo, temos esperança que tal manifestação desagradável não ocorra. Se estivéssemos certos da bronca não ficaríamos angustiados, ou com medo. Só lamentaríamos por antecipação.
Se a expectativa é a causa da angústia, e a esperança de que o mundo seja como nós desejamos o motor do medo, poderia o ser humano viver sem este doloroso engenho dos afetos? Provavelmente não. Quem conseguiria viver sem desejar? Há alguém no universo que consiga controlar a realidade a sua volta no intuito de fazer exatamente o que quer? Ou ainda, existiria uma filosofia de vida que nos libertasse da escravidão dos sentimentos? Se existe respostas afirmativas para tais perguntas eu desconheço.
O budismo, por exemplo, confere aos monges a possibilidade de se buscar uma vida desprovida dos desejos através da meditação, controle dos afetos e reclusão social. É a famosa busca pelo Nirvana. O desejo de um estado de espírito tranqüilo baseado na ausência dos afetos. Um quase estado de morte. Solução esta, sem eficácia plena, que a maioria dos seres humanos preferem não adotar. A segunda alternativa é a postura filosoficamente pessimista em relação a vida. Aceitar que a angústia é condição da existência e, por isso, sermos impedidos de nos livrar dela. Ser é sofrer, existir é se angustiar. Porém, sabendo que o mundo nunca será como nós queremos, devemos aceitar a vida como ela é. Com seus altos e baixos. Desejando o mínimo possível e evitando criar esperanças. Afinal, quanto menos esperança, menos medo. Menor a angústia. Melhor é a vida no presente que se vive.
Aceitar que somos seres estranhos ao mundo, e que este não existe para atender nossas carências e necessidades, que nada, além de nós mesmos, se preocupa com o nosso bem-estar, são os primeiros passos para um desenvolvimento emocional. Procedimentos iniciais para nos livrarmos da tirania desconfortável da angústia de viver.
20 Junho, 2008 às 5:28 pm
simplismente maravilhoso…
20 Junho, 2008 às 11:30 pm
”Aceitar que somos seres estranhos ao mundo, e que este não existe para atender nossas carências e necessidades, que nada, além de nós mesmos, se preocupa com o nosso bem-estar, são os primeiros passos para um desenvolvimento emocional. Procedimentos iniciais para nos livrarmos da tirania desconfortável da angústia de viver.”
Entendi sua conclusão, no sentido de que, devemos assumir as rédeas de nossas emoções, e de nossos sentimentos, não colocando nossas esperanças em mãos alheias, que a segurança de nosso bem estar depende unica e exclusivamente de nossas atitudes, que toda tentativa de projetar nossas esperanças em situações que escapám ao nosso controle gera desconforto emocional.
Somos nós , portnto, que dulcificamos ou tornamos a existencia amarga.
21 Junho, 2008 às 12:04 pm
Excelente Osvaldo,
O texto esclarece que é IMPOSSÍVEL não viver angustiado, ou ansioso. Faz parte de nossa condição humana (com excessão, é claro, de pessoas imersas na psicose). É impossível não criar expectativas em relação a vida. Porém, que façamos o menos possível. Que vivamos mais cada momento para saber melhor que expectativas podem ser melhores segundo o que estamos vivendo no momento. Que nossos planos, para não serem frustrados, devem ser os menos detalhistas e o mais próximo de ser realizado no instante. Na vida em carne e osso. Do agora. Afinal, só ele existe. O passado e o futuro são meras ilusões.
Espero ter ajudado.
21 Junho, 2008 às 12:41 pm
“Nascemos na angústia…”
Talvez fosse interessante acompanhar o desenvolvimento de bebês e observar como se desenvolve o pensamento a partir desta experiência de angústia.
Eu não gostaria de me livrar “da tirania desconfortável da angústia de viver” pois temo morrer…
23 Junho, 2008 às 6:07 am
Oi Arthur,
Eu estou de acordo que a angústia é medo. Medo de nao saber se o que vamos fazer é certo ou errado, se nossa forma de pensar e agir é a mais adequada, medo de que aconteça algo que julgamos ruim, medo de que alguém nos decepcione (e mais forte ainda quando já esperamos antecipadamente essa decepçao). Exatamente isso é o que eu sinto agora e posso afirmar que é horroroso. Mas se a soluçao é deixar de esperar (diminuir nossas esperanças e expectativas), acho que vou continuar na angústia, porque essa soluçao é impossível pra mim… Voce consegue?
beijos, gra
23 Junho, 2008 às 12:48 pm
Eu fiquei um pouco confuso, porque no caso o mais certo seria nao esperar nada das pessoas e das situações, mas também isso nao quer dizer que a pessoa tem que parar de viver suas emoções, pois ai ela teria que virar um monge?
ou entendi errado?
ou falei besteira?
no mais é um ótimo texto sim.
23 Junho, 2008 às 2:16 pm
Querido,
“Para variar”, fantástica sua reflexão.
Particularmente acredito que para sermos felizes, o segredo está no enfoque dado por nós mesmos, na nossa própria representação interna daquilo que vivemos.
Eu, particularmente, prefiro dar maior atenção e importância ao que mais me agrada ver e sentir (busca do prazer) e precuro eliminar as causas das minhas angústias. Quando não é possível, tenro eliminar a angústia pela causa (fuga do sofrimento).
Ainda que não seja uma maneira 100% realista de lidar com a vida, é o que mais bem me faz. E para mim, importa mais o bem-estar, do que a realidade. Afinal, o que é a realidade, no absoluto, ninguém sabe. Spo podemos lidar, sempre, com a nossa prória visão da realidade, que é sempre distorcida, reenquadrada, e amenizada.
Melhor assim.
Beijos !
23 Junho, 2008 às 4:19 pm
Caro Douglas,
Você entendeu a idéia do texto. Temos que viver a vida, segundo este viés filosófico, tentando não criar esperanças e expectativas em relação a elas. Tentar. Não significa conseguir. Sabemos que isso é difícil. A opção budista do monge é uma via, porém ela implica no sacrifício de se viver plenamente a vida. Viver da melhor maneira possível não precisa, necessariamente, viver sem desejos e emoções. Somente entendê-las e controlá-las quando se pode…
24 Junho, 2008 às 7:46 pm
Muito obrigado Arthur pela atenção e explicação, esse foi o primeiro texto que li aqui, vou lendo os outros textos durante a semana para apreciar melhor as suas idéias.
26 Junho, 2008 às 1:34 am
No entanto, seu texto não resolve a minha angústia. Uma pena…
29 Julho, 2008 às 4:38 pm
O texto que acabei de ler, num primeiro momento me deixou inquieto, pois parece que não vivo sem estar angustiado. Porém, acredito que tal sentimento torna o ser em devir um ser autêntico no aqui, nesse instante. Se a angústia sempre me acompanha como a minha própria sombra da qual não posso me livrar, e, se ela aperta meu peito concluo que ele não quer ficar esquecida.
Porém, uma questão fica comigo: quando o assunto é nosso sentimento em relação ao futuro não seria mais um medo do que propriamente a angústia? “Quem não se angustia não compreende nada da existência” S. Kierkegaard.
EDGAR, DE BAGÉ.
21 Agosto, 2008 às 5:56 pm
me angustio sempre que vou ao meu analista. Sera porque?
9 Novembro, 2008 às 2:43 am
11 Novembro, 2008 às 12:59 pm
[...] Baseado em um texto de Arthur Meucci [...]
14 Fevereiro, 2009 às 7:38 pm
Já fui angustiado, hoje vivo o exercício crítico da vida bem mais solto. Acho que cada um de nós é uma crise. Somos feitos de forças altamente contraditórias. Assim vivemos em relações em crise e numa crise em relação. Vivemos conflitos permanentes (mal administrados) entre desejos e razões. A produção da nossa subjetividade é carregada de fantasias e mentiras. A maior delas, Deus. Só ficamos mais soltos para a vida quando perdemos o medo de morrer e passamos a entender que a existência é um jogo onde você pode ganhar, empatar ou perder uma partida de vez em quando. Dependemos de saúde, talento, trabalho e sorte para tocar a vida. Um abraço.