O Paracer da RAE/GV: Uma Análise da Análise

O Paracer da RAE/GV: Uma Análise da Análise

Por Arthur Meucci

Terça-feira, onze horas da manhã do dia oito de julho de 2008. Recebo, para minha surpresa, um e-mail da Revista Eletrônica de Administração da Faculdade Getúlio Vargas (RAE-GV). Nele consta que um artigo meu, escrito em 2006, passou com sucesso por três etapas de avaliação até o parecer final. Espantei-me, pois nem me lembrava mais dele. Afinal, faz dois anos que enviei este trabalho para a revista.

Pensei em voz alta, “- Como pode uma revista de administração e negócios, de uma faculdade tão renomada, ter demorado tanto tempo para avaliar um artigo?”. Em um mundo mercadológico, onde os conhecimentos se tornam constantemente obsoletos, a demora na publicação significa a exposição de um conhecimento já ultrapassado. As análises e estratégias mercadológicas feitas em 2005, e enviadas no início de 2006, já não possuem tanta relevância e impacto no início do segundo semestre de 2008. No mundo dos negócios tal dinâmica seria rotulada de ineficaz. Já na academia…

No caso do meu artigo não havia a necessidade de uma imediata publicação. O trabalho era uma reflexão ética e epistemológica referente aos administradores e comunicadores organizacionais onde trato de questões referentes ao conceito de “verdade”, “transparência” e “identidade” tendo como referência uma consistente base empírica. Partindo dos discursos dos profissionais e da bibliografia acadêmica evidencio a inconsistência de certas crenças que constituem o mundo corporativo.

Porém, o que mais me chamou a atenção não foi a demora do parecer e sim seu conteúdo. O discurso dos pareceristas merece nossa análise minuciosa. Eles salientam que se trata de uma pesquisa “positiva”, ou seja, com conteúdo empírico. Entretanto, para incomodo da revista, “prevalece o tom ensaístico intercalado à análise de certas evidências empíricas”. Mas então, o que seria um ensaio? Por que ele não é considerado uma produção legítima?

Por ensaio a academia entende como “Estudo sobre determinado assunto, porém menos aprofundado e/ou menor que um tratado formal e acabado” (Dicionário Aurélio). Em vistas desta definição eu pergunto: Em que medida um trabalho, reconhecido pelos pareceristas como “empírico” e de “amplo domínio teórico das ciências humanas e sociais” pode ser considerado pouco profundo? Por contraste, tal artigo não seria um tratado formal e acabado. Porém, eu questiono: Quantos tratados nós vemos publicados em revistas acadêmicas? É possível escrever um tratado nas ciências humanas, no molde dos tratados matemáticos? As últimas tentativas de um tratado formal e acabado em ciências humanas que eu me lembro, no século XX, foram a ideologia social nazista e stalinista. Elas sim sistematizavam pensamentos profundos, acabados, contendo verdades inquestionáveis.

Para um artigo que questiona, com base empírica e teórica, o conceito de “verdade” no pensamento organizacional o pré-requisito para se estabelecer verdades acabadas é estranho. Mas quais seriam as verdades acabadas publicadas no último número da RAE? Vou mais longe. Quais são as verdades acabadas, logo inquestionáveis, da teoria geral da administração ou da comunicação? Existem? Toda pesquisa “positiva” gera verdades que não podem ser contestadas? Se a resposta for “Sim”, então o meu trabalho e muitos outros publicados na RAE não preenchem o requisito da revista. Se a resposta for “Não”, então toda produção acadêmica é um ensaio sobre uma possível verdade acerca do mundo. Continuaria não satisfazendo os critérios dos pareceristas.

Os avaliadores mencionam, como um estilo preocupante, uma “certa leveza ao texto e certo apelo [estilísticos] por vezes desnecessários”. “Emprego de modo excessivo o recurso à metáfora”. “Assim como no caso das citações de autores, isso traz um certo peso ao texto, para quem lê, mas conduzido com leveza pelo autor, dada a sua erudição”. De maneira muito elogiosa eles ressaltam aspectos negativos que em outras áreas seriam positivos. Leveza, forma, erudição e um leque de outras virtudes que lhes saltam aos olhos. Porém, tais qualidades não são bem vistas pelo mundo acadêmico da administração eu suponho. Tanto o caráter didático quanto o teor teórico do texto é problemático. Muitos administradores e comunicadores que leram o artigo se disseram incomodados. Um amigo, da área, chegou a dizer: “Seu texto dói!”. Uma comunicadora, dominante no campo, nos disse que o trabalho “cansa de tanto fazer pensar”. No congresso do EnEO/ANPAD, onde o trabalho foi apresentado, suscitou inúmeros elogios e preocupações. Filosofia incomoda mesmo…

No final do parecer expressam a não aceitação do artigo nestas condições. Entretanto, sugerem modificações para a publicação do mesmo: “Rever o artigo e procurar ajustar a linguagem para uma construção mais apropriada ao texto publicado, substituindo formulações que são mais próximas de conteúdos escritos (…) Procurar sistematizar a análise de evidências empíricas, melhorar e enquadrar o artigo como resultante de pesquisa positiva (…) caberia mudar a linguagem e a organização do texto.” Em outras palavras, esqueça toda sua crítica ao conceito de “verdade”, “objetividade” e “transparência” e escreva o texto se legitimando pelo conceito de verdade, utilizando a pesquisa empírica para justificar objetividade, criando estatísticas e dados para simular transparência. Esqueça o estilo literal, adotando uma escrita técnica e pouco convidativa para reflexões subversivas.

Apesar do convite honroso feito pela revista infelizmente terei de declinar. Depois de tanto tempo eu acabei publicando o artigo numa revista de comunicação, além de se tornar um capítulo de livro (Ética na Comunicação Organizacional, Ed. Paulus, 2007). O “mal” já está feito, para desespero dos reacionários protetores das esferas organizacionais.

6 Respostas para “O Paracer da RAE/GV: Uma Análise da Análise”

  1. Benhur Smeha Diz:

    Caro Arthur, tenho tido experiências semelhates nos últimos 20 anos. Penso que você foi um tanto ingênuo em achar que a RAE ou qualquer outra coisa “mais oficial” se interessaria por publicar verdade nuas, convites à reflexão ou qualquer coisa que de alguma forma ofereça perigo aos status quo, atravé sda incitação à inteligência.

    Da próxima vez, tente apresentar um artigo bem quantitativo sobre e-business, benchmarking, etc. Estou certo que ´será muito bem aceito,
    e em pouco tempo, você poderá particiapr das “classes dominantes”.

    Forte abraço

  2. Fernanda Penna Diz:

    o amor também dói.

  3. Kátia Pecoraro Diz:

    Meu querido Arthur… você é (gratificantemente) incorrigível!!!!

    Um grande abraço e muitas saudades!

    Keep walking.

    Kátia Pecoraro

  4. Celso Favaretto Diz:

    Caro Arthur,

    ainda bem que você, apesar da honra que lhe concedem, não precisa deles para continuar, ou melhor persistir, fazendo o que faz tão bem.
    Abraços,
    Celso Favaretto

  5. Allan Meucci Diz:

    Querido irmao, queria entender alguma coisa, mas me desculpe sou assalariado e tenho só o 1º grau , porque fumava maconha antes das aulas,mas prometo que vou tentar!! um grande abraço mano….

  6. Desde a Grécia antiga a filosofia visa desmascarar a realidade e isso não é vantajoso para o jogo do poder. E em que jogo nós estamos? Parabéns! Ruth

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