Fazendo História: Quando a História Acontece

Fazendo História
Quando a História acontece, mas você não percebe

Por Bernardo Issler

Dia 1º de maio, ano de 1500. O escrivão Pero Vaz de Caminha conclui a redação de uma carta com o propósito de comunicar, ao seu destinatário, o nascimento do Brasil. Dom Manuel, Rei de Portugal, leu na carta a anunciação de um novo mundo e ficou mais emocionado ainda quando soube pela leitura tratar-se de uma terra “em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem”.

Desde então, os descobridores desta terra e do novo mundo quiseram e dela se aproveitaram e continuam se aproveitando ao longo do calendário, percorrendo, ininterruptamente, 508 anos desde a carta do achamento até a marca de hoje.

As notícias extraordinárias da existência dessa terra paradisíaca foram acompanhadas de um sábio conselho, ousadia do escrivão para com o seu Rei: “porém o melhor fruto que nelas se pode fazer, me parece, que seria salvar essa gente e esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar”.

Essa gente, a quem ainda hoje chamamos de índios, indígenas, aborígenes ou outros sinônimos, eram os moradores, os habitantes da “terra achada”, os que acolheram os navegantes recém-chegados. Novo encantamento de Caminha: estavam alegres e nus! Dom Manuel ficou sabendo desde então que os donos da terra eram “gentes nuas como na primeira inocência, mansas e pacíficas…”

Mesmo assim, os mansos hospedeiros foram empurrados pelos homens que desembarcaram e continuaram desembarcando ao longo de cinco séculos. Cada vez mais empurrados em todas as direções, terra a dentro, esparramados, divididos, foram diminuindo, foram assimilados, mestiçados ou, então, os que se esconderam nas matas inacessíveis ou nos longínquos grotões foram poupados.

Um lugar na História
Índio não tem História. Como pode ter História quem perdeu sua origem, sua cultura, suas tradições? Os desaparecidos não deixaram papéis, nem selos, nem documentos. Não deixaram roupas, nem jóias, nem construções. Deixaram rastros, ruínas e restos por onde passaram e viveram. Quando eram os donos da terra deram nomes a rios, montanhas e animais. Alguns sobraram e foram aproveitados pelos invasores e seus descendentes para situar ou identificar pedaços da geografia dos antigos donos.

Os povos indígenas, ou seus remanescentes, encontram-se exilados em sua própria terra. Como se fossem refugiados de um conflito bélico coexistem, na atualidade, em territórios demarcados ou não, mas tradicionalmente seus. Demorados e burocráticos esforços recentemente direcionados para resgatar os salvados da civilização indígena, no dizer de Cláudio Villas Bôas, nem sempre produzem efeitos. O grande conquistador branco ainda não está satisfeito com a marcha desbravadora e civilizatória levada a cabo pelos criadores de bois, pelos plantadores itinerantes, pelos madeireiros dendroclastas e pelos extrativistas erosivos, entre outros especuladores e grileiros. Em nome do desenvolvimento de baixa rentabilidade, do mercado de gêneros alimentícios, os novos colonizadores não mais atuam, como agiam outrora, defendendo a coroa real ou a cruz da igreja.

A vertigem do enriquecimento voraz, especulativo e desenraizado lança a carga das brigadas ligeiras em direção ao último butim. As derradeiras resistências, os últimos seres nativos, espectros ainda vivos dos povos sem direito a História ou memória, tentam resistir nas ilhadas e descontínuas franjas da periferia nos espaços remanescentes do antigo torrão.

Contrariando a lógica até aqui reinante e, apesar dos discursos legitimatórios clamados pelos  que se identificam como políticos, militares, estrategistas, empresários rizicultores e outros porta-vozes dotados de grande potencial simbólico, tudo leva a crer que começou o registro do ano 1 dos povos indígenas na busca de um lugar na História. Assim como na era cristã, no calendário muçulmano ou até na pentamilenar contagem da História do judaísmo, vislumbra-se na data de 27 de agosto de 2008 a expectativa da abertura de contagem do tempo que marcará o ingresso ou um lugar na História.

Para atingir este patamar, os povos da civilização indígena do Brasil, sem guerras, sem terrorismo, sem bandeiras e nem mesmo um hino nacional, percorreram um demorado percurso no interior da cultura invasora e representante da civilização ocidental. Sem perder seus valores de origem, mas apenas usando o processo de legitimação do campo do saber, que estrutura o mundo dito civilizado e humanista, uma índia nua de origem, mas togada por imposição da Corte, defendeu como advogada a integridade das terras indígenas Raposa / Terra do Sol perante os Ministros do Supremo Tribunal Federal.

A advogada índia Joênia Batista abriu seu pronunciamento oral na língua nativa, assistida por representantes tribais. Perguntou: “O que nós cometemos para sermos julgados hoje? De pedaço em pedaço estão tirando nossas terras. E amanhã, como ficará isso?”.

A presença de uma advogada índia na Corte Suprema de Justiça do nosso país, ou seja, na mais alta instância do Poder Judiciário, ganha consistente significado simbólico  e também é um marco, uma ruptura no tempo, um divisor que não pode transitar indiferente na rotina seqüencial dos julgamentos da importante mas sonolenta Corte.

Não é preciso aguardar alguns anos e depois olhar para trás e descobrir o contundente significado da presença e sustentação oral de uma índia na máxima instância do Poder. Mais importante do que sua fala, essa presença assinala um relevante fato histórico, acontecendo diante de nós, agora, já decorridos 500 anos do processo gerador da nacionalidade brasileira. A História se faz presente, diante de nossos olhos. Infelizmente a grande defasagem de escolaridade do nosso povo impede que a maioria da população, e aí incluímos também representativa parcela da mídia e dos formadores de opinião, tenha o verdadeiro discernimento do que aconteceu em agosto de 2008, em Brasília.

Oportuno lembrar que os nativos desta parte do continente sul-americano – o índio brasileiro – viviam e vivem num estágio da cultura material anterior à idade dos metais. Desconheciam o uso de armas e ferramentas ou adornos metálicos. Eram caçadores, pescadores e praticavam uma rudimentar agricultura associada à mandioca e ao milho.

A coleta vegetal itinerante fazia parte do nomadismo praticado, o que explica a precariedade das aldeias, pejorativamente chamadas “malocas” pelo agressor branco tido como civilizado. A indústria do artesanato utilitário ou decorativo residia na apropriação simples da natureza, como o barro para cerâmica, a madeira e fibras, sementes, penas, plumas para demais necessidades não alimentares. O estado de nudez que chocou a moralidade puritana ou cabotina trazida pelo conquistador é, antes de tudo, indicador da profunda integração e pertencimento do índio à natureza, do seu estado de pureza não contaminado pelas atribuições de valor aos bens materiais da terra (como o ouro, prata, pau Brasil, agricultura comercial e outros tantos “recursos naturais” da nossa civilização) avidamente procurado pelo colonizador branco.

Conseqüentemente, estavam isentos e ignorantes do dinheiro, da moeda, da usura e da venda do trabalho. Estas práticas civilizatórias advindas constituíram os fundamentos para destituir o índio de sua condição humana, justificando-se com elas o seu alijamento e desterritorialização. Curiosamente o mundo civilizado aponta hoje para uma volta à terra, apelando para uma cínica consciência ecológica universal, defesa do verde e descontaminação dos espaços poluídos pela voraz ação antrópica. Teme-se agora que o mundo das megalópolis, das usinas fumegantes, dos campos pulverizados por agrotóxicos, das crateras residuais, do extrativismo mineral numa ponta e no outro extremo as montanhas de lixo, que nem a terra consegue digerir, transformem o nosso pequeno planeta numa imensa “maloca”.

O alarmismo não é nosso, lembramos apenas o que o cinema hollywoodiano está nos oferecendo como a próxima morada daqui a alguns anos. Veja, por exemplo, Wall-E, uma das mais recentes produções do cinema, e também Blade Runner, Metrópolis e inúmeras outras.

Afinal, qual a solução do dilema? Estamos indo em direção ao progresso, deixando atrás a barbárie, ou seguimos em direção contrária?Estamos em plena barbárie antropofágica e devemos voltar à nossa pureza e inocência?

A volta ao presente
Voltar ao presente nos remete ao passado. Reler a carta de Caminha e pensar no conselho ao Rei: “porém o melhor fruto que nelas se pode fazer, me parece, que seria salvar essa gente e esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar”.

Caminha refere-se aos índios como “gente” e propõe sua “salvação” da mesma forma como outros emissários divinos vieram à terra para salvação dos homens.

A salvação instituí uma nova era. Joenia Batista Carvalho Wapichana, quando escrever uma carta ao povo brasileiro anunciando que seu povo é gente e tem História, pode assim datar o documento: Brasília, 1º dia do primeiro mês do ano 1.

6 Respostas para “Fazendo História: Quando a História Acontece”

  1. Muito interessante o artigo!
    Interessante q os brasileiros defendem a cultura dos negros e esquecem de nossas raizes indigenas!

  2. Pois é o negro foi aculturado lego de saída, o indígena demorou muito tempo, e ainda são uma questão mal discutida… Se fosse pra ser justo como poderíamos compensa-los pelos danos morais e culturais, terras e etc…!

  3. Henrique Natividade Diz:

    Há alguma ótica meio perversa na “lógica” das suas observações que me parece uma espécie de ranço. Os índios foram massacrados pelo “homem branco”, sim, na esteira dos massacres que eles – os índios e os brancos)praticaram durante infindas gerações entre eles, nada mais do que isto. Centenas de milhares de culturas, etnias, tribos e comunidades, pelo mundo afora, em todos os tempos, desapareceram pelo simples contato com outras culturas tecnologica e socialmente em outros estágios de evolução. Que não se entenda aqui, superiores, apenas em estágios diferentes. As pessoas “politicamente corretas” parece que querem ter um brinquedinho antropológico para se divertirem às custas de outrem.

  4. e muito grade podia resumir

  5. CLAUDIO ALVES Diz:

    A popúlação indigina vive um paradigma, no qual sua existência hoje é fruto de uma luta ardua e incessante, de grupos de resistência de origem indigina, sabe-se que algo não for feito para reparar toda essa catastrofe alavancada péla sociedade dominanante de origem branca, ficará quase impossivel uma reparação.” Vamos dar a cesar o que é de cesar”, a igreja católica foi determinante sua contribuição para o legado negativo que pendura desde o periodo colonial até os dias de hoje para toda comunidade indigina no Brasil, então fica aqui minha sugestão igreja católica,nao basta só pedir desculpas a comunidade americana graças as descraças dos seus lideres religiosos, repare financeiramente todos os indios do Brasil, com suas riquezas.

  6. Lele Batita Diz:

    Caro Prof Bernardo Issler,
    Vou citar um fragmento do seu artigo no meu blog “Pérola de Cultura”.
    Sou portuguesa, professora de Filosofia e Psicologia.
    O dia 1º de Maio tem muita importância para nós portugueses.
    Se quiser, pode aceder ao meu Blog em http://peroladecultura.blogspot.com
    Poderíamos estabelecer uma comunicação e, se for o caso, linkar os respectivos blogs.
    As minhas felicitações pelo blog e abraços do lado de cá do Atlântico.

Deixe uma resposta